09 de julho de 2026
Bairros

Chuvas trazem saldo de destruição a Bauru

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Neste exato momento, milhares de bauruenses têm de quebrar a cabeça para descobrir uma forma de sair de casa. Além da cidade já estar repleta de buracos antigos, a situação piorou ainda mais depois que uma frente fria originada no sul do continente se encontrou com uma massa de ar quente vinda da região central do País. Isto fez com que as chuvas açoitassem o Sudeste do Brasil durante cerca de dez dias ininterruptos.

Em Bauru, cálculos do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp), indicam que os sete primeiros dias do ano registraram um índice de precipitação acumulada de 155,2 milímetros. Esse número representa quase 70% da quantidade prevista para a cidade em todo o mês de janeiro (esperava-se a média mensal de 223 milímetros).

Toda essa água não caiu impunemente. Ruas, avenidas, bairros inteiros, foram completamente destruídos pelas forças das águas. Lugares que antes eram pavimentados, como o Núcleo Octávio Rasi (zona leste de Bauru), estão agora completamente tomados pelos buracos.

Circular de carro por esse bairro tornou-se uma verdadeira aventura, tantas são as crateras espalhadas pelas ruas. Muitos podem chamar a situação de crítica (e realmente ela é), mas os problemas encontrados no núcleo estão longe de ser os mais graves existentes atualmente na cidade. Isto porque a maior parte dos bairros de periferia ainda não conta com pavimentação nas ruas. Segundo dados da Secretaria Municipal da Obras, existem cerca de 3.500 trechos sem asfalto espalhados pela cidade.

Nos últimos dias, as enxurradas têm sido implacáveis com as ruas de terra que cortam as regiões carentes do município. Resultado: hoje a maior parte das vias existentes nesses locais estão intransitáveis. No Parque Roosevelt (zona oeste da cidade), é difícil encontrar uma que não esteja sumindo no interior de uma cratera.

São tantos buracos que os moradores já nem chamam mais as vias de ruas. “São caminhos”, diz o comerciante José Carlos Bonfim, que vive há mais de dez anos no bairro. As erosões sem limites não são privilégios apenas do Parque Roosevelt. Outras áreas da cidade também contam com crateras aos milhares.

Elas estão presentes tanto nos bairros da zona oeste, como Parque Santa Edwirges e Núcleo Nove de Julho, quanto nos da região leste, como Jardim Manchester e Tangarás. A única coisa que “atenua” o problema dos buracos nas ruas de terra é o mato, que ajuda a conter as erosões.

Só que quando o capim cresce demais, os problemas passam a ser outros: ratos, cobras e escorpiões atormentam a vida das pessoas. No Jardim Manchester, o matagal está tão grande que ultimamente até veados e micos podem ser vistos circulando pelo bairro.

Mas nem sempre a grama é eficiente para segurar as erosões. Em algumas regiões da cidade as crateras ficaram tão grandes que acabaram se transformando em verdadeiros ‘canyons’. No Jardim Ivone e no Parque Jaraguá, casas construídas próximas a riachos estão prestes a despencar no barranco. Todos os dias, a situação dos moradores desses locais piora mais e mais, sobretudo agora, que a força das enxurradas tem colaborado substancialmente para o crescimento das crateras.

Sem grandes opções, os moradores são obrigados a conviver com o medo constante de algum dia acordarem soterrados. São os riscos de se morar numa cidade sem planejamento adequado. Mesmo aqueles que vivem longe dos barrancos não estão livres dos perigos ocasionados pelas chuvas. No Parque das Nações (zona sul de Bauru) os moradores já se acostumaram a ter as casas invadidas pela lama, em dias de temporais.

O local também é alvo freqüente das cheias do córrego Água da Ressaca. Quando chove demais, o rio transborda e toma conta de tudo. Impotentes, os moradores apenas esperam as águas baixarem, para poderem voltar ao curso normal da vida. Nem sempre é fácil.

Logo que se mudou para o Parque das Nações, há cerca de dez anos, a catadora de papéis Yolanda Marquesini perdeu tudo o que tinha numa enchente. Hoje, quando olha para o céu e vê as nuvens escuras, ela fica apavorada. “Vou para casa e tento colocar as coisas num lugar onde as águas não alcancem. Se bem que não tenho nada de valor...”, diz.

Edição especial do JC nos Bairros de hoje mostra o saldo da destruição causada pelas chuvas nas regiões oeste, norte leste e Centro-sul de Bauru.