08 de julho de 2026
Bairros

Manchester: ‘Selva amazônica’

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Por volta de 1850, a cidade britânica de Manchester já era poluída. Considerado um dos principais centros industriais da Europa na época, o local praticamente sumia em meio à fumaça de centenas de fábricas que ali funcionavam. Hoje as coisas mudaram, mas por muito tempo o local esteve associado às idéias de progresso e modernidade.

Em Bauru, porém, o Parque Industrial Manchester (zona leste) não se parece, nem de longe, com a cidade que lhe empresta o nome. “Isso aqui está mais para selva amazônica”, brinca Claudeci dos Santos Tavares, a Cláudia, presidente da associação de moradores local.

Distante do Centro, o bairro é cercado por um imenso matagal, que mais parece uma floresta. As ruas são de terra e não contam sequer com guias. “Para falar a verdade, nem placas indicando o nome das vias o bairro possui”, diz ela.

Encontrar o endereço de um morador é tarefa complicada para alguém que não conhece bem a região. A pessoa roda pelas ruas de terra e a única coisa que vê são algumas casas perdidas em meio ao mato.

As chuvas das últimas semanas aliadas ao forte calor, típico da estação, têm sido um prato cheio para o capim, que cresce sem parar, invadindo os inúmeros terrenos baldios que existem no local. Nem mesmo as ruas escapam: o matagal tomou conta de boa parte delas e, hoje, os espaços que antigamente se destinavam ao tráfego de automóveis acabaram se transformando em pequenas trilhas.

A situação é desesperadora e o moradores já não agüentam mais esperar por soluções da parte do poder público. “Por mim nem precisaria de asfalto. Se abrissem as ruas e retirassem um pouco desse mato, já seria o suficiente”, diz um senhor que vive há cerca de oito anos no bairro mas preferiu não se identificar.

Enquanto a ajuda não vem, o matagal cresce viçoso. A vegetação é tanta que ultimamente as residências das pessoas têm recebido visitas inusitadas. “O bairro está ficando infestado de bichos. Outro dia encontrei uma jibóia no meu quintal. Ela tinha 1,60 metro de comprimento. Isso sem contar a coral que a gente matou há alguns meses, além das aranhas e escorpiões que todo dia aparecem dentro de casa”, conta Cláudia.

Ela afirma que até mesmo animais raros, como micos, têm sido vistos na vizinhança. “Eles costumam ir comer na minha varanda”, garante. Nos últimos tempos, até mesmo um veadinho começou a passear pela ruas do Manchester. “De vez em quando, ele passa pulando aqui em frente”, diz Cláudia.

Uma fauna rica, de fazer inveja a qualquer zoológico do Brasil, mas que no passado foi ainda mais variada. “Quando o bairro surgiu, em 1980, até jaguatiricas existiam neste lugar”, relembra Cláudia.

____________________ Pântano

Os moradores do Parque Industrial Manchester (zona leste de Bauru) estão tendo a chance de viver uma experiência que nem sempre está ao alcance dos habitantes das grandes cidades. Nos últimos dias, eles estão conhecendo na prática como é o dia-a-dia em um pântano.

É que depois de dias seguidos de chuva, as ruas do bairro se transformaram em imensos lamaçais. O barro está por todo lado, pronto para provocar escorregões e sujar as roupas das pessoas.

“Nesta época, todo mundo aqui se suja com a lama”, garante a dona de casa Claudeci dos Santos Tavares, a Cláudia, presidente da associação de moradores do bairro. No Parque Industrial Manchester, evitar as poças é uma tarefa quase impossível.

“Até para ir ao mercado a gente tem de passar pelo meio do barro”, afirma ela. É lama pela frente, por trás, do lado. “Quando as pessoas daqui saem de casa, elas até evitam colocar sapato antes de chegar no ônibus, pois sabem que vão se sujar”, diz Cláudia.

O uso de sandálias de borracha, mais fáceis de serem lavadas, também não costuma se mostrar uma solução muito vantajosa no período das chuvas. “Na medida em que caminhamos, o chinelo vai jogando terra nas nossas costas. Fica parecendo um muro chapiscado”, compara a presidente.

Os moradores do bairro têm de enfrentar a lama inclusive na hora de escolher os governantes. “Dá até raiva de pensar que, a cada quatro anos, atravesso todo esse brejo para ir até o Núcleo Octávio Rasi votar, ajudando a eleger pessoas que nunca fazem nada por nós”, protesta.