09 de julho de 2026
Bairros

Região Centro-sul: Pq. das Nações vive sob risco de enchentes

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Na medida em que Bauru foi crescendo, toda a paisagem natural aqui existente se alterou. Matagais transformaram-se em praças, bosques deram lugar a prédios e florestas inteiras foram substituídas por imensos bairros. Nem todas as formas de ocupação, porém, ocorreram de forma regular.

Devido à expansão desordenada da cidade, muitas pessoas acabaram indo viver em lugares pouco (ou nada) recomendáveis. Entre todas as áreas de risco possíveis de ser enumeradas atualmente em Bauru, talvez a que ofereça perigos mais freqüentes aos seus moradores seja o Parque das Nações, situado às margens do córrego Água da Ressaca, na zona sul.

A explicação para isso é simples: grande parte dos imóveis do bairro foi edificada em local inadequado, muito próxima à margens dos mananciais. Quando chove demais, as águas do riacho transbordam para aquilo que seria uma extensão natural do leito.

Nessas ocasiões, a corredeira não perdoa nada, levando tudo o que há pela frente. Não por acaso, quando a catadora de papéis Yolanda Marquesini Jeremias, 57 anos, olha para o céu e vê as nuvens escurecendo, não perde tempo: corre para casa e tenta esconder todas as coisas de valor que possui em um lugar onde as águas não possam alcançar.

“Se bem que não tenho nada de importante que mereça ser salvo”, reconhece ela. Jeremias começou a agir dessa forma desde que teve a residência atingida por uma inundação, logo que se mudou para o Parque das Nações, há 12 anos.

A casa onde ela mora é simples, feita de madeiras velhas, e não oferece grande proteção contra a enxurrada, que desce com muita força das partes mais altas do bairro. O imóvel abriga mais 12 pessoas, e fica logo ao lado de um veio d’água que corre em direção ao Água da Ressaca.

Em dias de chuva, os mananciais engrossam com a enxurrada, carregando caminhões de detritos do solo. A erosão aumenta a cada dia no bairro. Grande parte do terreno onde mora Jeremias já foi devorada pela força das águas. Para proteger o que restou do quintal, a família improvisou uma pequena barreira com tijolos de barro cru.

“Isso não adianta, pois a água vem e leva tudo. Até porco morto costuma descer por aqui quando chove”, diz ela. Como outros moradores de áreas de risco da cidade, a catadora de papéis também tem vontade de se mudar para um lugar que ofereça menos riscos a sua família. “Mas sem dinheiro não dá para fazer nada”, reconhece.

Enquanto não conseguem ir viver em um bairro menos úmido, os moradores do Parque das Nações aguardam ansiosos o dia em que Prefeitura de Bauru tomará algum tipo providência contra as enchentes e enxurradas que atormentam o local.

“Se for depender disso, pode esquecer. Moro há 20 anos neste lugar e todo ano sempre é assim. Nunca muda. Essa situação só vai melhorar no dia em que Jesus voltar”, desabafa o funcionário público Geraldo Laves da Silva.

____________________ História

Apesar de já ter se tornado um cenário comum para os moradores da zona sul da cidade, a ocupação desordenada das margens do córrego Água da Ressaca, na região do Parque das Nações, é relativamente recente.

“Esse é um problema que teve início na metade dos anos 80. Muita gente começou a construir naquela área, mesmo sabendo que era proibido”, conta o artista plástico Francisco Takao Kajino, 58 anos, ex-presidente da associação de moradores do bairro. Ele mora no local desde os 9 anos de idade e acompanhou as diversas transformações ocorridas na região ao longo das últimas décadas.

“No passado a situação aqui era muito pior. Nenhuma rua do bairro era asfaltada e não havia ponte para as pessoas atravessarem o rio. Para cruzar do outro lado, a gente tinha de passar por uma pinguela”, relembra.

Segundo ele, a realidade do bairro (que ainda é uma das mais sofríveis de Bauru) melhorou de forma considerável depois que algumas importantes vias que cruzam o lugar receberam pavimentação. “Depois que asfaltaram a avenida José Vicente Aielo e a rua Luiz Ferrari, as coisas ficaram bem mais fáceis por aqui”, afirma.