09 de julho de 2026
Cultura

Mergulho nos contos de fada

Por Diego Molina | Com Agência Estado
| Tempo de leitura: 3 min

“A Dama na Água”, que chega às locadoras sem ter passado pelos cinemas de Bauru, não foi a morte cinematográfica do diretor M. Night Shyamalan (de “O Sexto Sentido” e “A Vila”), como se disse por aí. O filme não é pretensioso demais ou incompreensível, mas apenas um pequeno conto de fadas infantil com trama voltada para adultos. E esse é seu maior problema.

Como já havia feito em “Sinais” e “A Vila”, o diretor cria um pequeno filme acerca de um núcleo limitado de personagens, para poder trabalhá-los com carinho – e tem bom resultado mesmo com o zelador Cleeveland Heep (Paul Giamatti, de “Sideways – Entre Umas e Outras”, mais uma vez ótimo). Triste e solitário, ele cuida de um condomínio e descobre que alguém vem entrando na piscina durante as madrugadas.

A “contraventora” é Story (Bryce Dallas Howard, a menina cega de “A Vila”, também excelente), uma “narf”, espécie de ninfa de histórias infantis milenares, que tem a missão de inspirar um dos moradores do condomínio, um escritor em crise, a produzir algo que será a salvação da humanidade. Além de provar sua verdade, a criatura acaba por reunir os moradores com a missão de protegê-la de criaturas malignas e mandá-la de volta a seu mundo mágico.

Nessa fábula sobre como contar histórias, Shyamalan usa todas as metáforas que fizeram seu cinema ímpar ser admirado por crítica e público. Em seus filmes, tudo o que está na tela significa alguma coisa, só é preciso interpretar seus sinais.

Em entrevistas, o diretor e roteirista indo-americano afirmou que “A Dama na Água” surgiu na mesma época de “A Vila”, mas o segundo foi desenvolvido antes porque parecia responder a dúvidas de uma época sombria de sua vida: até onde iria para proteger sua família? Fugiria do convívio social? Agora, ele parece ter mais esperanças, especialmente depois de ter mudado de estúdio após longo conflito com a Disney.

Se o tema da volta para casa é tão perene ao cinema americano, o grupo que ajuda a ninfa a cumprir seu destino é formado por “párias” da sociedade: imigrantes chineses e latinos, velhos, desempregados, gordos e feios... E as mesmas metáforas de “A Vila” retornam: o local isolado por uma floresta, a garota frágil, a fera, e tudo volta a fazer sentido sobre a América e o mundo atual.

Dentro das próprias metáforas, Shyamalan revela o filme todo na busca por sinais, já que os personagens precisam descobrir quem são as pessoas a serem tocadas por Story. Como em “Sinais”, quando Mel Gibson precisava descobrir a verdade sobre sua família, mais do que sobre os extraterrestres, os moradores do condomínio buscam sua própria redenção ao unir-se pela salvação de um ser mágico.

Todos os elementos básicos dos filmes do diretor estão lá - a água, a criança com ação importante, uma ponta do próprio Shyamalan, o personagem principal em busca de perdão de si mesmo - e provocam sorriso nos fãs, pois têm esse universo mágico e real como base; as imagens da guerra do Iraque na TV só explicitam isso. Para espectadores eventuais, é um cinema que foge do óbvio por ter muito mais camadas do que as produções ordinárias e, então, será difícil crer que tanta gente acreditou em uma ninfa saída da piscina do prédio. Vale a tentativa de também acreditar.