09 de julho de 2026
Articulistas

Pena capital e o capital da pena


| Tempo de leitura: 3 min

Um amigo, descendente de árabes, recentemente me instigou a escrever um artigo espinafrando, nas palavras dele, “aquele *#@#% do Bush por ter executado o Saddam Hussein”. Como estávamos em um bar, lugar onde não discuto nada em profundidade, fiquei em dúvida sobre a real razão de tanta raiva. Seria por que o amigo é fisicamente parecido com o ex-ditador do Iraque, gostava disso e está frustrado por que agora só se parece com um defunto? Acho que não. Seria por que considerava Saddam um homem de bem, injustiçado pelos americanos? Disso duvido. Seria porque é contra a pena capital? Bem, se for essa a razão, estou de acordo. Sou profundamente contrário à pena de morte, por diversos motivos, dentre os quais o principal é a irreversibilidade. Os juízes são humanos e falíveis e, aplicada a pena capital, não há mais correção possível.

Saddam Hussein foi julgado, reconheçamos, por um tribunal tendencioso, mas isso não exime a sua culpa. Patrocinado pelos Estados Unidos, que pretendiam (e ainda pretendem) controlar as reservas petrolíferas do Iraque e fincar um pé firme no Oriente Médio, Hussein estabeleceu um regime de força que lhe garantia reeleições com 99% dos votos (me engana que eu gosto) e assassinava cruelmente seus opositores, inclusive o próprio genro. Mas cabe uma indagação: quem se beneficiou com a execução? Ou seja, quem ficou com o capital da pena?

Teriam sido os novos aliados iraquianos do Bush? Não acredito que o novo governo Iraquiano possa ter se beneficiado, pois a execução só fez aumentar a violência política no país, e Saddam provavelmente vai se transformar em um mártir a inspirar cada vez mais violência e perenizar o antagonismo entre Sunitas e Xiitas. Em minha opinião, tê-lo mantido vivo, na masmorra, pelo resto da vida, teria sido punição maior e mais segura. Portanto, o governo do Iraque não ficou com o capital da pena.

Teria Bush ficado com o benefício da pena capital? Pelas mesmas razões anteriores: não. Esse está atolado até o nariz numa situação onde ele próprio se meteu junto com outros líderes mundiais que o apoiaram. Não leu nada sobre o Vietnã e não aprendeu que no mundo moderno não se vencem guerras contra etnias. Desconhece que o mais sofisticado dos aparatos militares sucumbe diante das técnicas de guerrilha utilizadas por toda uma população com crença e disposta a expulsar o invasor. Resultado: provocou a morte e a mutilação de milhares de jovens americanos, gastou bilhões de dólares e tornou-se impopular em seu país, como ficou claro nas eleições legislativas recentes. Está a caminho do ostracismo político onde espero que apodreça e passe para a história como o mais estúpido de todos os presidentes dos EUA.

Então, quem ficou com o capital da pena capital? Acho que o próprio Saddam Hussein foi o beneficiado, já que saiu de um buraco fétido onde se escondia para a condição de mártir de seu povo, voltou a ter acesso a um palanque durante seu julgamento e, ao ser morto, evitou um destino pior, que lhe traria sofrimento (merecido) pelo resto da vida, dia após dia lembrando de seus tempos de poder e opulência, jogado em uma cela de prisão. De quebra ainda livrou-se de assistir às cenas cruéis que todos temos que ver na TV e nos jornais, de irmãos árabes matando-se mutuamente. Mas isso, não creio que ele tivesse sensibilidade para lamentar.

O autor, Eric Fabris, é engenheiro civil e colaborador da coluna Opinião