São Paulo - No quarto dia de buscas por vítimas da cratera que se abriu nas obras do Metrô em Pinheiros (zona oeste de São Paulo), dois corpos foram encontrados ontem pelos bombeiros em meio aos escombros. O primeiro a ser localizado foi o da aposentada Abigail Rossi de Azevedo, 75 anos, que caminhava pela rua Capri após ir ao médico quando o buraco tragou a via. A identificação de suas digitais foi feita, apesar de o corpo ter ficado dilacerado (não se sabe se pelo acidente ou se pelo trabalho de resgate).
A segunda vítima foi avistada pelos bombeiros dentro da van também engolida pela cratera. Até o início da noite, a pessoa não havia sido identificada e havia a possibilidade de mais vítimas dentro do veículo. “É uma mulher. Mas eu recomendo que nenhum familiar desça para vê-lo. A cena é muito forte”, disse o capitão Minori, que atua nas buscas. Minutos depois, o comandante do Corpo de Bombeiros da região metropolitana, João dos Santos Souza, afirmou que nem era possível identificar se era homem ou mulher.
Os trabalhos dos bombeiros eram acompanhados por parentes dos desaparecidos. Por volta das 19h30, após saberem da vítima na van, eles se abraçaram e choraram. “Não temos mais esperanças. Já passou muito tempo e estamos muitos desgastados”, disse Meg Araújo, tia do cobrador da van Wescley Adriano da Silva, 22 anos.
O secretário estadual da Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, afirmou que ainda não é possível identificar a causa do desabamento do canteiro de obras. “Temos de esperar os laudos. Mas, agora, a prioridade é encontrar as vítimas.” Até a noite de ontem, cinco pessoas permaneciam desaparecidas: um pedestre, um motorista de um caminhão da obra e outros três ocupantes da van.
As vítimas
A aposentada estava soterrada a cerca de 20 metros do solo, disse o comandante do Corpo de Bombeiros. Foram cães farejadores que apontaram anteontem à noite onde estava o corpo. Ela foi encontrada às 4h50, após escavações manuais. O trabalho demorou devido à instabilidade do terreno.
A Secretaria da Segurança informou que o corpo da aposentada foi encontrado partido ao meio, na altura do tórax. Ele teria se rompido durante o soterramento. Parente de um dos desaparecidos e um motorista da obra, porém, dizem que foi a retroescavadeira que o partiu. Segundo a reportagem apurou, um braço da aposentada foi achado no aterro em Carapicuíba (Grande SP) onde é depositada a terra retirada da cratera.
Encontrado o corpo da aposentada, os trabalhos voltaram a ter como prioridade a retirada da van, onde poderia haver quatro vítimas. Por mais de cinco horas, as equipes de resgate ficaram a cerca de dois metros do veículo.
A distância permanecia inalterada porque quando se retirava a terra de cima, uma outra porção que estava no entorno rolava em direção à van. Só às 17h25 os bombeiros conseguiram ter um contato visual claro com o veículo. Um corpo foi visto pela janela quebrada do último banco da van, que estava enterrada de bico. Ao conseguirem completar um canal de acesso até o veículo.
Os trabalhos
Trinta bombeiros revezaram-se durante todo o dia na operação. Eles analisavam os locais onde as retroescavadeiras tiravam e colocavam a terra, na busca por indícios de vítimas. Alguns preferiram manter os trabalhos mesmo após completar o turno de 24 horas. Um cachorro farejador ajudava na busca - um outro cão foi deslocado para o aterro em Carapicuíba. A intenção era identificar possíveis restos de corpos. Os animais conseguem sentir o suor humano.
Apesar das dificuldades e do tempo já passado do acidente, tanto o Corpo de Bombeiros quanto o governo estadual diziam ser possível encontrar pessoas com vida. “Os bombeiros sempre trabalham para encontrar sobreviventes. A esperança é a última que morre”, afirmou Souza, comandante dos Bombeiros. “Há relatos em acidentes no mundo em que são encontradas pessoas com vida após cinco dias ou até mais”, disse. Mais comedido, o secretário da Segurança Pública afirmou que “Deus queira que haja sobreviventes, mas a hipótese parece cada vez mais difícil.”
Duas frentes
Os trabalhos durante a maior parte do dia foram concentrados na parte superior da cratera, com a retirada de terra pelas retroescavadeiras. Até o início da noite, já haviam sido retirados 450 caminhões de entulho. No final do dia, porém, a ação teve de ser interrompida, pois uma rocha ameaçava rolar, o que causaria novo deslizamento.
A equipe de resgate precisou colocar concreto magro (fino) na área, para evitar a movimentação do terreno. Com os trabalhos pela parte superior prejudicados, os bombeiros voltaram a atuar pela parte inferior, por meio de um túnel. A ação havia sido interrompida porque as buscas pelas duas extremidades poderia gerar deslizamentos.