09 de julho de 2026
Política

Carne podre triplica e passa de 1 ton

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

O desperdício de carne na área de merenda escolar da Prefeitura de Bauru já é três vezes superior ao primeiro levantamento realizado na última sexta-feira. Relatório da Vigilância Sanitária, que inspecionou a situação do produto a pedido do Gabinete do prefeito Tuga Angerami (sem partido), informa que a quantidade de carne imprópria para uso é de 1.166 quilos, mais do triplo dos 350 quilos iniciais identificados na semana passada.

O produto foi descartado para consumo e enterrado no aterro sanitário. Conforme a assessoria de imprensa da prefeitura, os 230 quilos de frango e 120 quilos de carne identificados na sexta-feira passada referiram-se aos pacotes separados pela própria merenda escola, cujo departamento considerou que o restante dos produtos acondicionado em freezers ainda poderia estar apto para consumo. Mas o relatório da Vigilância Sanitária, cuja inspeção contou com a participação do próprio secretário municipal de Saúde, Mário Ramos, descartou a hipótese de aproveitamento dos gêneros.

O prefeito Tuga Angerami (sem partido) determinou à Corregedoria Administrativa que promova a abertura de processo administrativo para o episódio. Este procedimento é para punir direto os responsáveis, ou o responsável, pela ocorrência. A dificuldade é que, em geral, as irregularidades na gestão pública dependem de apuração primeiro em sindicância administrativa para, depois de levantados os elementos do caso e de identificar possíveis culpados, abrir processo administrativo. Mas o Executivo considera que o episódio exige punição rápida.

O relatório da Secretaria Municipal de Educação sobre a ocorrência aponta que a falha teve relação com erro na programação da utilização dos produtos alimentícios, sobretudo em função do período de férias escolares.

Segundo o governo, o consumo de carnes na merenda escolar tem programação semanal. Em razão das férias escolares, no período próximo ao Natal do ano passado o Departamento de Merenda Escolar teria programado quantidade para atender a 25 entidades assistenciais, apesar de apenas cinco terem encaminhado ofício informando que não iriam ter atividades no período.

O JC levantou que o produto pode ter circulado durante quase um dia inteiro no caminhão para a entrega, retornando ao final do expediente com a sobra. O descongelamento ou resfriamento do produto já era um fator complicador para o consumo do ponto de vista nutricional. Ainda assim, os 1.116 quilos de carne foram guardados em freezers sem qualquer providência ao longo das semanas seguintes, ao invés de serem aproveitados no mesmo dia por outro setor.

Com todas essas falhas, a situação do produto ficou próximo do estado de putrefação, conforme verificou o JC. Os quilos de isca de patinho estragados seriam devolvidos e, mais tarde, repostos, mas “quando começamos a tirar das caixas (para guardar no freezer) começou a juntar muita mosca-varejeira. Mesmo assim, estocamos tudo. Depois, quando fomos descongelar um pacote, percebemos um cheiro muito forte”, comentou uma funcionária de uma creche ouvida pelo JC, cujo nome foi preservado a pedido.

Problemas antigos

A administração ainda enfrenta problemas estruturais no recebimento, armazenamento e destinação de produtos alimentícios. Apesar de ter extinto a cozinha industrial do Caic, na Vila Nova Esperança, para eliminar deficiência no setor, no ano passado, a prefeitura não conseguiu resolver os problemas na área de merenda. Os servidores passaram a receber tíquete alimentação.

Um estudo apresentado ao prefeito pela secretária Ana Daibem defendia a terceirização do serviço de merenda escolar. Mas o prefeito preferiu adiar a decisão sobre o assunto, em 2006.

Ainda no ano passado, 1.500 quilos de molho de tomate em pó tiveram a validade vencida e terão de ser substituídos pelo fornecedor. O Estado entregou 5.000 quilos do produto, mas como sua utilização é maior em polpa e não em pó na rede municipal e estadual, 3.500 foram consumidos e o restante não resistiu ao prazo de validade.

No início de maio do ano passado, o prefeito Tuga Angerami ainda teve de determinar a abertura de sindicância administrativa para apurar responsabilidades pela perda de 1.390 quilos de carne, que estavam armazenados na cozinha do Caic. Os prejuízos teriam tido relação com o início da greve dos servidores e defeito na câmara fria de armazenamento.

Na época, conforme o JC publicou, o perecimento da carne foi constatado por uma nutricionista da Secretaria Municipal da Saúde. A profissional sugeriu que o produto não fosse aproveitado na preparação das refeições.