08 de julho de 2026
Turismo

O solar e as pitangueiras

Eliane Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Uma viagem ao Recife demanda algumas horas de visita ao Solar de Santo Antônio de Apipucos, ou seja, ao sobrado onde o escritor, ensaísta e sociólogo recifense Gilberto de Melo Freyre (1900-1987) morou com a esposa, dona Madalena, e os filhos.

Aberto à visitação após a morte do grande pernambucano, o solar rosado continua com decoração impecável. Nada foi mudado, nem os móveis, nem os cristais, nem os livros. Conserva até a cama do casal na mesma posição.

Gilberto acreditava que não se devia dormir com os pés voltados para fora da casa. Isso poderia levá-lo aos céus antes do previsto... Por conta desse misticismo assumido, viveu 87 produtivos anos.

No solar os visitantes percebem a preocupação do grande homem com detalhes e sua adoração por frutas, doces e comidas típicas do Recife (no masculino, por favor!).

A mesa do sobrado – de jacarandá maciço - estava sempre com decoração impecável, incluindo guardanapos de linho, louças e talheres finos e a indispensável jarra de cristal com suco de frutas da terra.

O sobrado é cercado por plantas nativas, incluindo uma das adorações do grande sociólogo: pitangas. Segundo a jornalista Judith Patarra, Freyre, no final das refeições ou quando recebia visitas, servia cálices de um néctar de sua invenção: conhaque de pitanga. Delícia que até hoje é vendida pela Fundação Gilberto Freyre, responsável pelo solar. Freyre dizia que a pitanga era “a cereja brasileira”. Vermelha, cheirosa, rica em vitaminas.

Amante das letras, das artes, dos frutos, da família e do açúcar, o autor da obra homônima fazia questão de defender que “não há abacaxi fresco que seja mais saboroso que um sorvete de abacaxi, nem banana crua que seja superior em gosto a uma banana assada com açúcar e canela; nem caju fresco, com seu inevitável ranço, maior ou menos que dê mais prazer a um gourmet que um doce de caju em calda”.

Apipucos, como se vê, é doce, saboroso. Reserva ainda aos visitantes uma viagem à criação do grande mestre que deixou ao mundo 63 livros e aproximadamente 85 opúsculos, além de cerca de 2.500 artigos e prefácios sempre voltados ao amor à pátria e à sua cidade natal.

A casa da rua Apipucos, 320, foi o endereço mais procurado pelos intelectuais brasileiros e estrangeiros que nos visitaram, como Aldous Huxley, admirador da obra de Freyre, principalmente de “Casa-Grande & Senzala”.

Esta, a primeira obra sociológica e antropológica dos trópicos e que nos conta a formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Sentar no banco do terraço com painel de azulejos, sob os lampiões, é voltar ao tempo do patriarcado rural, cuja decadência Gilberto retratou em “Sobrados & Mocambos”.

Você poderá ver o boneco que reproduz a figura do escritor sentado na sua poltrona preferida, perna direita dobrada sobre o espaldar e a prancheta na mão, servindo de apoio para firmar a escrita manual. Exatamente como ele trabalhava.

Antes ou depois de visitar o sobrado, não deixe de parar e admirar a singeleza do Largo Apipucos, com casinhas coloridas fincadas sob árvores centenárias. Do outro lado ficam o açude e o casarão onde Assis Chateaubriand nasceu, cresceu e se tornou o grande homem das comunicações, fundando em Recife a base dos Diários Associados (o Diário de Pernambuco é o jornal mais antigo do País).

Apipucos fica a nove quilômetros do Centro. Um bairro que abrigou a aristocracia pernambucana no século 19. Foi aberto por Othon Bezerra de Melo, que viria a se tornar o magnata dos hotéis de luxo da rede Othon.

Ele que construiu o açude (referencial dos grandes poetas) num braço do Capibaribe, outrora estância balneária dos ricos. Lá está a casa de Delmiro Gouveia, o lendário pioneiro da indústria têxtil, e do ex-governador Cid Sampaio. Tudo tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional.

Entre Apipucos e Casa Forte (um dos bairros mais tradicionais do Recife) funcionam outros marcos culturais da cidade, como a Fundação Joaquim Nabuco, o Museu do Homem do Nordeste, o Ibama, a Editora Massangana, o Centro de Estudos – Cehibra e a União Brasileira de Escritores.

Casa Forte, Apipucos e Poço da Panela preservam o bucolismo e aconchego das casas com quintais cheios de fruteiras, das cadeiras dispostas nas calçadas para prosa entre vizinhos. Habitados por intelectuais e artistas, os bairros preservam o casario do século 18, cercado por palmeiras imperiais e vegetação campestre.

As ruelas possuem, ainda, calçamento de pedras que conduzem por caminhos agradáveis a modernos restaurantes e elegantes bares.

Esses bairros nasceram em terras dos engenhos da margem esquerda do rio Capibaribe, descendo das colinas para a planície, com a urbanização sendo conduzida pelo rio e pela estrada que os margeiam: a outrora chamada estrada do Monteiro, hoje avenida 17 de Agosto.

Isso é um pouco do Recife. Como se vê é preciso muitas viagens a esse destino para se conhecer um pouco do Recife. Quem vai, volta. Impossível viver essa rica cultura numa só viagem.