É bom deixar duas coisas claras, antes de tudo. O trailer de “Déjà Vu”, que estréia hoje nos cinemas não faz jus a esse thriller de ação, suspense e ficção científica. Seria melhor assistir a essa boa aposta do diretor Tony Scott em seus atores, mais do que em seus maneirismos, sem ter visto a chamada, o que é praticamente impossível para quem foi ao cinema nos últimos meses.
E o início do filme, em um dia ensolarado, com centenas de famílias e crianças felizes que de repente se tornam vítimas de uma grande explosão, com corpos e destroços voando por todos os lados, parece mesmo déjà vu (ilusão da memória que leva a crer já ter visto ou vivido alguma situação) de outros trabalhos do produtor Jerry Bruckheimer (“Con Air”, “Pearl Harbor”, “Bad Boys” e a série “C.S.I.”). Mas sua “influência maléfica” fica em segundo plano, a favor da trama com teorias de Albert Einstein abordadas de forma bem original, ainda que haja grande paralelo com “Minority Report”.
É o terceiro filme de Denzel Washington com o diretor (após “Maré Vermelha” e “Chamas da Vingança”) e o ator está excelente como o carismático e solitário agente federal Doug Carlin. Depois da explosão terrorista de uma balsa com centenas de militares e famílias em Nova Orleans, ele é chamado para investigar e descobre o corpo da jovem Claire Kuchever (Paula Patton), com indícios de que ela está diretamente envolvida com o responsável pela tragédia.
Carlin é chamado pelo FBI e apresentado a uma nova tecnologia que, em resumo, pode recriar digitalmente as imagens de quatro dias antes, por meio de filmagens de satélites e uma “ponte” que aproxima dois pontos no tempo, o famoso “buraco de minhoca” de Einstein. Com auxílio de três cientistas do bureau, Carlin e o agente Andrew Pryzwarra (Val Kilmer) seguem a rotina de Claire e percebem que, de alguma forma, podem influenciar o que acontece no passado. Falar mais é entregar o restante da trama.
Assim como em praticamente todos os filmes que tratam de viagens no tempo ou mudanças de realidade, como “A Casa do Lago”, “O Pagamento” e “Efeito Borboleta”, apenas para ficar em exemplos recentes, é melhor não tentar achar muita lógica na história (como “o que acontece com as pessoas da outra linha do tempo”?) ou as pontas soltas desfazem a meada. Se nem mesmo Einstein conseguiu resolver seus paradoxos da viagem do tempo ...
O melhor mesmo é deixar-se envolver por essa história policial com toques de “Big Brother”, em que o diretor Tony Scott deixa de apelar para tiques modernosos de câmera, como em “Chamas da Vingança”, e consegue conduzir a ação por sua própria agilidade. Os cortes rápidos e fusões visuais já são sua marca registrada e sua abordagem nesse longa é mais econômica e, assim, correta para o tema. O roteiro é do novato Bill Marsilii e de Terry Rossio (co-roteirista dos filmes “Shrek” e “Piratas do Caribe”).
Além das ótimas presenças de Denzel Washington e Paula Patton (do musical “Idlewild”, realizado pela dupla Outkast), o filme acerta com Jim Caviezel como o terrorista de olhar frio – ainda que sem motivação definida – e Adam Goldberg e Erika Alexander como os agentes do FBI. O longa ainda tem belas locações em Nova Orleans e foi o primeiro realizado na região após a passagem do furacão Katrina.
Além da explosão do início, “Déjà Vu” tem outros momentos quentes, como a perseguição do agente Carlin com uma espécie de capacete que integra a tal tecnologia de “filmar o passado”, que provoca uma série de acidentes em uma rodovia. Irmão mais novo do atualmente preguiçoso Ridley Scott, Tony parece em plena forma, como nos velhos tempos de “Dias de Trovão” e “Top Gun”.