09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Meditação contextual

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Narciso era um belo jovem. Certo dia, ao olhar-se no reflexo das águas de um silencioso e profundo lago, ficou encantado por sua beleza. Ele achou seu reflexo tão belo que não conseguia mais deixar de se contemplar. Nada e mais ninguém conseguia atrai-lo. Sua imagem era a única coisa que conseguia admirar. Em um destes momentos de contemplação de sua beleza, Narciso impensadamente quis abraçar a sua própria imagem no lago. Ao cair nas águas profundas, não conseguiu mais escapar e morreu afogado.

A palavra meditação é, hoje em dia, muito utilizada e possui uma diversidade enorme de significados. Normalmente se faz a relação imediata da meditação com práticas religiosas ou filosofias orientais. Por este motivo, talvez seja necessário o resgate de uma determinada prática de meditação que possui sua origem na cultura grega e romana da Antigüidade. Seu significado pode ser compreendido através da própria etimologia da palavra. A expressão “meditatio” (ou o verbo “meditari”) é o equivalente latino para o substantivo grego “meléte” (ou o verbo grego “meletân”).

Em primeiro lugar “meléte” significa exercício. Esta palavra está associada, por exemplo, à expressão “gymnázein” que significa exercitar-se, treinar. Porém, enquanto que “gymnázein” significava o treino para confrontação com um adversário para saber se sou capaz de ser mais forte, a palavra “meléte” é antes uma espécie de exercício de pensamento. Para os gregos e romanos, meditação (“meléte” ou “meditatio”) consiste em fazer um exercício mental de apropriação, de incorporação ou encarnação de um pensamento. Esta meditação trata-se de se apropriar de um pensamento e dele se persuadir tão profundamente que, por um lado acreditamos que ele seja verdadeiro e, por outro, podemos constantemente redizê-lo, expressá-lo tão logo a necessidade se imponha ou a ocasião realmente se apresente.

Em segundo lugar, esta forma de meditação é praticada através de uma espécie de experiência, uma experiência de representação. Vamos citar um exemplo para ficar mais fácil sua compreensão: a meditação da morte. Meditar sobre a morte, no sentido em que os latinos e os gregos entendiam, não significa pensar que se vai morrer e nem mesmo significa se convencer de que se vai efetivamente morrer. Meditar sobre a morte é colocar-se, através do pensamento, na situação de alguém que está morrendo, que vai morrer, que está vivendo seus últimos dias ou mesmo o seu último dia. Em outras palavras, meditar sobre a morte, seria, por exemplo, acordar de manhã e viver o dia como realmente o último.

A partir desta meditação, não somente nos acostumamos com a situação desconfortante da morte, mas resgatamos a intensidade do viver. A meditação neste sentido não é um jogo do sujeito com o pensamento, mas do pensamento com o sujeito. Nos deixamos a mercê de um determinado pensamento que desejamos ter. A meditação é o exercício do sujeito colocar-se em uma situação e reagir como se ela realmente existisse. Portanto, não é conhecer a verdade sobre um determinado pensador como nos sugere a meditação racional, não é se colocar no vazio de pensamentos como nas filosofias orientais, mas a constituição para si de uma situação, uma condição que ainda não vivenciei.

Um outro exemplo seria a meditação sobre a situação do outro. Nesta tentamos nos colocar no papel do outro. A situação de outra pessoa pode ser uma circunstância que ainda não vivenciei, mas que poderei vivenciar no futuro. Para esta prática de meditação vale o alerta de Flávio Gikovate: não basta nos colocarmos no corpo do outro permanecendo com nossa alma, mas é fundamental nos transportarmos para o ser humano integral do outro. Em outras palavras, nesta meditação não basta me colocar na situação do outro com a minha consciência e reagir conforme eu reagiria, mas tentar se situar no outro totalmente, percebendo não somente sua situação, mas também seus sentimentos diante dela.

Praticar esta meditação é, por exemplo, colocar-se na total situação do meu vizinho quando resolvo fazer uma festa em casa, me colocar na situação do outro que vai comprar meu carro, se colocar na situação do outro que é meu paciente, se colocar na situação do meu empregado ou do meu patrão. Se sou o primeiro da fila no banco, me transportar para a situação e os sentimentos de quem está no final da mesma fila. Quando estou sem pressa e pacientemente dirigindo na faixa da esquerda, me colocar na situação do motorista que está com seu carro atrás do meu e com necessária pressa precisa chegar ao seu objetivo.

Colocar-se na situação do outro é uma meditação que não nos leva a centrarmos em nós mesmos, mas em nosso contexto social. Uma meditação muito rara nos dias de hoje, nos quais cada um parece perigosamente encantado com sua própria beleza.