Se os ventos tiverem soprado para o lado certo e dado onda no final de semana, sorte a de quem estiver no show do californiano Ben Harper, que toca em São Paulo amanhã e terça-feira. Ele deverá estar inspirado. Por dois motivos: ele é surfista, assim como seus amigos-cantores Jack Johnson e Donavon Frankenreiter - este que abre os seis shows de Harper no Brasil -; e provavelmente teve a chance de “entrar na água”, como diz, no Rio e Salvador, onde se apresentou, respectivamente, na quinta-feira e ontem.
Além disso, sua turnê 2007 se inicia pelo Brasil, após um jejum de nove anos, quando esteve no Free Jazz de 1998. Após esse hiato, Harper promete uma seleção de músicas que abrace boa parte de sua obra - sete álbuns, sendo o primeiro de 1994 (“Welcome to the Cruel World”) e o último, “Both Sides of the Gun”, de março de 2006. “Mas nunca escolhemos o set list até talvez uma hora antes do show.”
O alívio é que de música ele entende - de rock, funk, blues e reggae a gospel e baladas. Em entrevista coletiva por telefone, na semana passada, ao ouvir Harper falar sobre a poluição de São Paulo após ser questionado se conhece a política brasileira, não dá para arriscar falar de mensalão nem de violência no Rio. O detalhe é que, na abstração dele sobre o que lê nos jornais, não se conclui se a poluição a que se refere é a do ar ou a visual - em relação à lei que proíbe propaganda nas ruas, noticiada no “New York Times”.
Mas não precisa saber de Brasil para dizer que “é preciso haver mais compaixão entre política e grandes negócios”. “Quando é que alguém é rico o suficiente para começar a devolver um pouco (ao povo)?”
Aqui o que ele quer mesmo é “ver capoeira, comer churrasco, ouvir cavaquinho”. Berimbau ele até já usou na música “Less”, do álbum “Burn to Shine” (1999). E na memória sobre o Brasil: surfe e Corcovado. “Minha memória mais antiga é de ver meninos ‘pegando jacaré’ (surfar com o corpo) em ondas enormes. Não podia acreditar”, diz o cantor, que, após a turnê, percorrerá o Sul do país por três semanas numa moto, com um colega de sua equipe.
De sua casa em Los Angeles, Harper antecipa um obrigado ao Brasil. “Tenho viajado o mundo nos últimos dez anos, e, em todo show, há fãs brasileiros. Obrigado a vocês por manterem a música tão viva.”
Ben Harper diz não ver a hora de subir ao palco com sua banda, a Innocent Criminals, cuja atual formação está tocando “da forma mais excitante”. Após 13 anos de carreira, a afinidade é tão grande que, em Paris, em 2006, eles gravaram um novo disco em uma semana.
O que era regra nos discos anteriores - Harper assinar letra e melodia- virou exceção neste, a ser lançado em setembro. “Fiz as letras, mas todas as músicas, exceto talvez uma, foram uma parceria (com a banda)”. E como é o disco? Acústico. É disco de um compositor.”
• Serviço
Ben Harper faz show amanhã e terça-feira no Via Funchal, na Capital. Ingressos a R$ 150,00 a R$ 300,00. Mais informações: (11) 3089-6999.
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Infância entre instrumentos
Ben Harper foi criado imerso na loja de instrumentos musicais de seu avô, Charles, em Claremont, Califórnia, onde nasceu. Era para a Folk Music Center - que até hoje reúne os mais variados instrumentos de corda - que Harper ia quando voltava da escola.
Foi de ver sua avó, Dot, tocando violão, que ele, criança, começou a pensar nisso. “Quero trazer música para as pessoas como minha avó faz. Ela está fazendo as pessoas felizes”, lembra ele sobre o que pensava, no vídeo “Pleasure and Pain” (2002).
Da infância, tem a lembrança de ir com o pai a um show de Bob Marley, quando tinha 8 ou 9 anos. “Musicalmente, foi um grande momento para mim. Lembro de cada som como se fosse hoje.” Ele não esconde a paixão. “A música de Bob Marley é a música mais atemporal já feita”, diz ele, que é casado com a atriz Laura Dern.
Coincidentemente, com sua verve musical, Harper se encaixa na definição que uma vez Peter Tosh deu para “wailer”: aquele que canta com a alma. Artista que vai do rock ao gospel, Harper não quer o estigma de cantor romântico ou de protesto. Como se define? “Nunca faria isso. Todo mundo que tenta se descrever é um imbecil. Apenas quero fazer o melhor.”