Religiões derivadas de cultos africanos, espíritas e indígenas, como o candomblé, a umbanda e o catimbó, ainda sofrem com o preconceito de parte da população. A principal razão para essa discriminação está na falta de conhecimento das pessoas, que acabam associando esses ritos à feitiçaria ou ao satanismo.
A confusão já começa na hora de denominar as religiões. “Todo mundo pensa que se trata de uma coisa só, mas na verdade são cultos distintos”, explica o sacerdote bauruense Rodrigo Queiroz, do Templo Escola de Umbanda Sagrada, localizado na Vila Falcão, zona oeste da cidade.
A falta de conhecimento colabora na proliferação de termos pejorativos, como ‘encosto’ e ‘saravá’. “Essas expressões são agressivas. Costumam chamar nossa religião de macumba, por exemplo. Na verdade, esse é o nome de uma árvore considerada sagrada pelos antigos povos africanos. Era em torno dela que se faziam os rituais sagrados”, explica.
Josué Gomes, o Jô de Ogum, é babalorixá e mantém um terreiro de candomblé na Vila Industrial (zona oeste de Bauru), desde 2003. “Quando me mudei para lá o preconceito do pessoal era grande”, recorda. Naquela época era comum que as pessoas proferissem palavrões ao passar em frente ao templo.
“Houve ocasiões em que até pedras chegaram a atirar no terreiro”, conta Jô. Com o passar o tempo, porém, os vizinhos acabaram se acostumando à presença do babalorixá. “Hoje muitos vêm até aqui me visitar e me tratam muito bem quando me encontram na rua”, afirma.
O pai-de-santo Marcelo Sebastião, o Marcelo de Xangô, dono de um terreiro de catimbó situado no Núcleo Joaquim Guilherme (zona sudoeste de Bauru) - a Casa-Tronco da Jurema Mestre Zé Pelintra -, também já experimentou o preconceito em diversas situações.
“A maior parte vem desse pessoal evangélico (do ramo pentecostal). Eles dizem que a gente cultua o demônio. Não sabem que os mestres de jurema (divindades cultuadas pelo catimbó, oriundas das antigas religiões indígenas) só visam o bem da humanidade”, explica.
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A discussão
Euclides Garcia é proprietário de um dos endereços mais conhecidos de Bauru, a Casa São Benedito, na quadra 3 da avenida Rodrigues Alves. O local ganhou fama pelo fato de comercializar artigos para umbanda e candomblé. Entre todo os material exposto na loja, o que chama mais a atenção do público são duas estátuas de gesso em tamanho natural representando um casal de Pretos Velhos.
“São meu xodó. Não vendo os dois por nada, pois eles me dão muita sorte”, afirma Garcia, que trabalha no local há 15 anos. O casal faz tanto sucesso que as pessoas costumam até mesmo depositar moedas e cédulas nas mãos estendidas das imagens. “Eu junto tudo e dôo para instituições de caridade”, garante ele.
Apesar de serem muito estimados pela maioria das pessoas, a dupla de Pretos Velhos e a loja que lhe serve de morada não agradam a todos os bauruenses. De vez em quando, Garcia costuma ser alvo de críticas de fiéis de igrejas pentecostais, que costumam associar o candomblé e a umbanda à feitiçaria e ao satanismo.
“Eles falam, mas nunca dou bola”, garante. Quase nunca. Numa ocasião, uma senhora (aparentemente evangélica) entrou na loja e foi até o balcão onde estava Garcia. “Pensei que fosse comprar algo. Que nada! Ela virou-se para mim e disse: ‘Você quer ir para o céu ou para o inferno?’”, recorda.
Garcia não deixou barato. “Falei assim: ‘A senhora, que conhece os dois lados, poderia me dizer qual é o melhor. Se o inferno for uma lugar legal, quem sabe eu até não resolvo passar uma temporada por lá?’”, afirma. A mulher saiu pisando duro e o comerciante, que é espiritualista, voltou a se dedicar àquilo que estava fazendo antes de ser abordado.