08 de julho de 2026
Articulistas

De Angelis


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O pior do ficar velho, mais do que a restrição física é perder os amigos e entes queridos. “Se algum deles morre eu fico torto para um lado”, disse Vinicius de Morais em poema dedicado aos “amigos que a gente não faz, reconhece-os”. Outro dia foi o Sampainho, o Moussa, depois Célio Gonçalves. Agora, Flávio de Angelis. Eles nem sabiam o quanto foram meus amigos – parodio o poeta. Recuso-me a escrever necrológios, mas impossível não dizer quanto os amei. Para conviver com a idéia da finitude o homem precisa acreditar na complexidade de tudo o que nos rodeia no Universo. Ainda acredito que apesar de decisiva, a morte pode ser compreendida, sentida e chorada de maneira menos dolorosa quando se apreende desse fato as melhores lições de vida e de amor.

Quando Flávio fez aniversário em novembro, ainda no hospital, Raduan pediu-me que redigisse um bilhete para acompanhar o presente, assinado por todos. Achei que a mensagem deveria ser descontraída para não provocar a emoção do Calabrês fragilizado. Escrevi que, além do ser solidário, disposto a qualquer sacrifício pelo próximo, o primeiro a se apresentar em caso de necessidade, Flávio ainda tinha a qualidade acessória de nunca pedir “dinheiro emprestado”. Brincadeira à parte, na verdade ele sempre se doou. Nada quis. As dezenas de coroas de flores enviadas pelos seus admiradores, alguns que sequer o conheciam pessoalmente, homenagearam a sua existência. Viram nele a realização dos seus próprios sonhos de bondade. É a explicação que encontro. Acredito que a morte não extinguirá a colaboração amiga e a intercessão confortadora, graças as dimensões vibratórias que repercutem além da vida.

No tempo do Diário de Bauru eu o chamava de Flavius Angelicus, pela maneira de considerar a todos inocentes, até prova em contrário. “É preciso ver o lado cheio do copo” – repetiu a vida toda. Por ele fiz o Cursilho da Cristandade e me reconciliei com Dom Padim, com quem iniciei uma polêmica. Escrevi que a Igreja demorava-se em fazer a opção pelos pobres, como se comprometeram os bispos latino-americanos em Puebla, no México, evento que cobri como jornalista. O bispo de Bauru mandou uma carta ao jornal que chamou de “desinformado”. Retruquei que desinformado era ele que não parava em Bauru e nem conhecia os seus diocesanos. O jornal daquela época tinha um estilo moleque, irônico com o sistema ditatorial e muitas vezes cáustico com as figuras proeminentes. Rendi-me à santidade do amigo e de Dom Padim. Mesmo quando a gente cutucava a onça, ignorando os conselhos de cautela do Flávio, quando o caldo engrossava a ponto de sair tiro ele jamais saiu da frente. Inovou a crônica social com a coluna “Panorama”. Em vez de ficar na badalação da burguesia procurava a crítica serena e construtiva; as notícias otimistas de primeira-mão sobre as conquistas de Bauru. Uma vez o substitui na coluna para cobrir suas férias. O título da seção continuou o mesmo, com o seu nome, apenas com um (interino) para não responsabilizá-lo. Foi anunciada a visita do presidente Ernesto Geisel a Bauru e comentei que, a despeito da ilustre presença nenhuma obra havia em andamento para que pudesse inaugurar. Com exceção do mictório da Praça Rui Barbosa. “Com direito àquelas três despingueladas de todo prostático”. No ano seguinte Flávio teve a sua inscrição rejeitada à Escola Superior de Guerra porque estava fichado no Departamento de Ordem Política e Social. Estressado por natureza o jornalista entrou num transe de inconformismo e pediu para Alcides Franciscato investigar o porquê. O deputado resolveu o impasse e a matrícula foi liberada, mas Flávio não quis mais aceitar. Com a redemocratização do País, abertos os arquivos do Dops, um pesquisador desvendou a história. O recorte da coluna Panorama com a nota de mau-gosto estava lá, com atribuição a Flávio de Angelis, o titular da coluna. Erro do Carlão, o agente local encarregado de relatar atos e atores subversivos da região, para a inteligentzia da ditadura. Flávio nunca me cobrou esse dissabor.

No universo racional dos homens, pode-se afirmar que a única certeza da vida é a morte. No entanto, ela sempre chega de surpresa. Até mesmo quando o estado de saúde é delicado. A família e os amigos conservam-se esperançosos pela possível recuperação. Jamais se admite que se abra um vazio, um nada, onde há plenitude. Mas será que a morte é um fim em si mesma? Aprendi que o fim está na desistência de continuar vivendo, na ausência de harmonia entre o Ter e o Ser. Quando somos, a morte não é, e quando a morte é, não somos mais. Flávio jamais desistiu.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC