11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Paulo Neves: o revelador de talentos

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

O bauruense Paulo Roberto Alves Neves tem 58 anos de vida e quase quatro décadas de trabalho dedicado ao teatro. Modesto, se sente lisonjeado pela fama de ter dado o pontapé inicial na carreira de atores como Edson Celulari, Arietha Correa ou Tina Kara, mas não se vangloria disto. Pelo contrário: afirma que a humildade é requisito básico para liderança e conta com ela em seu trabalho como professor e diretor de teatro,

Filho de Celina Lourdes Alves Neves, renomada diretora teatral homenageada com o nome do Teatro Municipal de Bauru, Paulo Neves iniciou-se nos palcos não apenas devido à influência materna. Seu trabalho como jornalista também teve forte peso em suas escolhas, conta ele durante entrevista ao Jornal da Cidade, local onde começou sua trajetória profissional.

“Como jornalista, freqüentei ensaios e aprendi muito com diretores teatrais e atores. Assisti e fiz críticas a filmes e peças de teatro. Procurei saber o que eu gostava e realmente queria. Foi uma grande curiosidade, que gerou um grande aprofundamento”, diz.

Com mais de 75 espetáculos teatrais no currículo, ele é professor de aproximadamente 90 alunos e atualmente está cuidando dos preparativos finais da 6.ª Mostra de Teatro Paulo Neves, que começa nesta quarta-feira e vai até domingo. No bate-papo a seguir, o diretor fala mais sobre seu trabalho, sua vida pessoal e suas paixões, entre elas, o futebol. Confira os melhores trechos a seguir.

JC - Quais é a sua maior vocação?

Paulo Neves - Adoro lecionar, ser diretor de teatro e o jornalismo. São três coisas que me deixam muito feliz.

JC - O teatro é uma herança? familiar?

Paulo Neves - Sim, da minha mãe. Quando meu pai morreu, em 1951, ela tinha a opção de ser uma dona de casa, cuidando de mim, dos meus dois irmãos e dos meus avós, mas se tornou professora de datilografia no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e abriu a Escola Progresso. Ela via a educação no sentido amplo da palavra, ela não se limitava a dar aula de datilografia, dava uma aula de vida.

JC - Foi sua mãe, Celina Lourdes Alves Neves, que influenciou sua carreira teatral?

Paulo Neves - Seria muito paternalista se eu disser que foi somente minha mãe. Em parte foi ela, mas o outro aspecto importante foi meu trabalho como jornalista. Freqüentei ensaios e aprendi muito com diretores teatrais e atores. Assisti e fiz críticas a filmes e peças de teatro. Fiz a cobertura do 1.º Festival Internacional de Cinema, no Rio de Janeiro. Lá eu conheci o Glauber Rocha e o Nélson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade. Procurei saber o que eu gostava e realmente queria. Foi uma grande curiosidade que gerou um grande aprofundamento.

JC - O senhor chegou a atuar nos palcos?

Paulo Neves - Sim, eu atuei com minha mãe em duas peças escritas por ela: “A Dona História” e “Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera”. Mas eu era péssimo nos palcos.

JC - Mas esta não é uma opinião somente sua?

Paulo Neves - Não. Eu tenho autocrítica e, definitivamente, era muito ruim. Aí eu fui para a direção teatral, porque sempre gostei muito de criar em teatro, assim como no jornalismo.

JC - Seus filhos estão seguindo seu exemplo?

Paulo Neves - Eles já atuaram em algumas peças e são bons atores. A Talita e o Thiago são meus assessores diretos. Eles me ajudam muito e são as cabeças pensantes do Curso Livre de Teatro. Mas em casa, sempre disse que não importa a profissão que eles escolherem, pode ser teatro, engenharia ou administração, é preciso segui-la de maneira digna, honesta e fazer o melhor. Então eles estão experimentando para ver se é isso que querem realmente.

JC - O ator bauruense Edson Celulari começou a fazer teatro com o senhor. Além dele, quais outros nomes iniciaram carreira ou tiveram o pontapé inicial por meio dos seus cursos?

Paulo Neves - O Osmar Nunes Jr. está indo para o SBT fazer a novela “Maria Mercedez”; a atriz Tina Kara fez a novela “Cobras e Lagartos”; o Pedro Garcia, que é sobrinho do Edson Celulari, fez a minissérie “JK”; a Arietha Correa está atuando na peça teatral “O Avarento”, com Paulo Autran, além de ter participado da novela “O Rei do Gado” e a minissérie “A Casa das 7 Mulheres”; a professora de teatro Samira Brandão, que é formada pela Universidade de Campinas (Unicamp) e a Tatiana Foresti, formada pela Universidade de São Paulo (USP), que também é professora teatral e dá aulas em oficinas culturais.

JC - Como é sua relação com estes atores e atrizes?

Paulo Neves - É muito boa. Bato-papo e gosto de acompanhar o trabalho deles. A Tina Kara conversa muito comigo. Fui assistir “O Avarento” e a Arietha Correa perguntou minha opinião, se havia gostado, etc. Somos amigos e acredito que amizades como essa são muito importantes.

JC - O senhor é conhecido por revelar talentos na área artística. Como se sente em relação a isto?

Paulo Neves - Com toda a honestidade, isso mexeria comigo há 20 ou 25 anos. Hoje isso já não acontece. Me considero um garimpeiro de talentos mas com muita sobriedade e humildade porque a vida ensina muitas coisas. Uma vez, um advogado me perguntou o que eu havia ganho com isso e nunca ganhei absolutamente nada. E ele me disse que eu deveria ter feito contrato com os meus ex-alunos. Mas eu não consigo fazer isso. Eu quero que as pessoas sejam felizes, encontrem seu ponto, caminhem para fazer o melhor para sua cidade e para o País.

JC - O senhor trabalhava com teatro desde a época da repressão cultural, provocada pela ditadura militar. Como foi esse período? Seu trabalho chegou a ser censurado?

Paulo Neves - Na época, montei um espetáculo chamado “Yes, Nós Somos Brasileiros”, que foi liberado em Bauru pela censura federal, mas proibido no Mato Grosso porque eles queriam que a peça mudasse de nome para “Sim, Nós Somos Brasileiros”, e eu não mudei. Depois montei o “Mulher, Segundo e Terceiros”, que teve alguns cortes da Polícia Federal porque continha alguns palavrões. Depois veio o “1.º Psicosamba”, o primeiro musical feito em Bauru, com Badê, Roberto Magalhães, Fredoca e o Hamilton Scobar. Minha mãe, como era diretora de teatro, teve problemas com a censura porque ela queria mostrar para o público textos históricos e a maioria eram nacionais.

JC - Qual é sua ligação com o futebol?

Paulo Neves - Um dos meus sonhos é ser treinador de futebol. Ninguém acredita, mas eu adoro futebol desde criança.

JC - O senhor joga bola?

Paulo Neves - Eu sou ruim a beça (risos), mas tem um detalhe importante nos meus 58 anos de vida: eu sempre tive um time de futebol de salão. Na escola Luiz Zuiani, onde eu lecionava, comandava um time, durante três anos. Na época da faculdade, quando cursei história, eu era o técnico do time e também jogador. Comecei a ligar o desconfiômetro e vi que não era muito bom, só que minha equipe era. Havia uma coisa interessante em minha vida, que era o sentido de liderança. Os colegas eram muito melhores do que eu, nós jogamos 15 anos de bola e sempre estávamos juntos, eles estavam jogando comigo. Acho o futebol maravilhoso. Eu acompanho Campeonato Brasileiro, Paulista, bauruense, futebol italiano e francês.

JC - Gosta de acompanhar a mídia esportiva?

Paulo Neves - Sim, eu gosto da mídia esportiva, embora ela tenha alguns problemas. Ela faz algumas “médias” e também “arrebenta” jogadores. Ela é muito forte neste País. Mas sempre acompanho o esporte, em geral. Assisto jogo de futebol, tênis, vôlei. Eu adoro o Bernardinho. Ele é a maior figura do Brasil hoje. Ele é organizado e estimula o time. Isso é genial.

JC - O senhor se espelha no técnico Bernardinho para desempenhar seu trabalho como professor e diretor de teatro?

Paulo Neves - Sim. E para ser um diretor de teatro, é preciso ter liderança, criatividade, confiança, amor ao que se faz, humildade, entender, saber respeitar as individualidades e o espaço de cada um, ser honesto e ético. No meu trabalho com o grupo teatral, eu não admito que o aluno tenha muitas faltas. Não é apenas pela questão do preço, mas sim pela falta de compromisso, responsabilidade e dedicação. Isto, para mim, é muito sério, principalmente quando se trata de liderança e trabalho.

JC - Ser líder implica em saber dizer não. O senhor já chegou a desaconselhar um aluno a fazer teatro ou dizer que ele não tinha talento?

Paulo Neves - Sim, para algumas pessoas fui obrigado a dizer, principalmente para o pai que leva o filho para fazer teatro. É com dor no coração que eu digo isso, mas é preciso ser honesto, dizer que não é possível ou então sugerir para que essa pessoa vá a uma fonoaudióloga ou psicóloga, por exemplo, e depois volte a fazer aulas.

JC - No ano passado, o senhor realizou o projeto Otimidade, com aulas teatrais para adultos. Como foi essa experiência?

Paulo Neves - O projeto foi o grande ponto, para mim, de 2006. Fiquei muito feliz com meus alunos e com o projeto. Reuni 21 pessoas de diferentes idades, profissões e níveis sociais e conseguimos fazer “Cenas Brasileiras + 2”, que ficou muito bonito. Foi uma realização muito grande mim porque sinto que consegui deixar outras pessoas felizes, ajudá-las a recuperar algo em que acreditam, ou um sonho. O importante é que a emoção sobreviva, que se tenha amor naquilo que se faz. Procuro tratar todos os atores como profissionais, não importa quem sejam. Se eles freqüentam as aulas para fazer terapia e ficarão bem depois, ótimo, eu fico feliz; se vão para perder a inibição ou timidez; se vão ao grupo para aprender história do teatro, fico feliz; se eles forem para uma emissora de televisão, também ficarei feliz. O teatro abre esse leque, ele tem várias vertentes.

JC - O que o senhor gosta de fazer nas horas livres? Sobra tempo para a vida pessoal?

Paulo Neves - Eu sou muito sozinho. Estou separado há cinco anos e neste tempo não namorei ninguém. Estou sentindo a falta de um colo, de uma pessoa inteligente, que me entenda e com que eu possa conversar. Isto me faz falta.

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Perfil

• Nome completo: Paulo Roberto Alves Neves

• Local de nascimento: Bauru

• Idade: 58 anos

• Filhos: Thiago de Carvalho Alves Neves, 21 anos; Talita de Carvalho Alves Neves, 22 anos; e Aline Costa Lima Alves Neves, 24 anos

• Hobbies: Futebol, vôlei, cinema, leitura e conversa inteligente

• Livro de cabeceira: “Vidas Secas”, “Hamlet” e “Biografia de Vinicius de Moraes”

• Filme preferido: “Um Homem e Uma Mulher”

• Estilo musical predileto: todos os tipos de música popular brasileira, de Cartola a Zeca Baleiro

• Time do coração: São Paulo e Noroeste

• Para quem daria nota 10: Gandhi

• Para quem daria nota 0: para todos os políticos brasileiros