08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Corujas ou urubus?


| Tempo de leitura: 3 min

Em São Paulo construíram o aeroporto de Congonhas e não venderam o Campo de Marte. Construíram Cumbica e não venderam Congonhas, que é um dos maiores do País em pouso e decolagem e movimentação de passageiros. Bauru ainda nem sequer conseguiu dar conta de terminar o aeroporto Bauru-Arealva e os especuladores de plantão já se encarregaram de levantar custos, preços e condições de venda do aeroporto e aeroclube. E vendo os números, com certeza é um colírio para os olhos de muitos que vêem nesse tipo de negócio mais uma chance de se dar bem.

Nós tivemos as obras do novo aeroporto paralisadas por uma década e nesse período não tivemos sequer um político que fosse até os altos escalões dos governos municipais, estaduais e federais para levar até eles um estudo visando a duplicação da Bauru-Ibitinga que terá, sem dúvida, alguma uma grande demanda de tráfego leve e pesado em conseqüência do início da operação do mesmo. Passamos o vexame de ter de sair desatolando veículos que ficaram pelo caminho no dia da falsa inauguração do referido aeroporto por falta de pavimentação no acesso do mesmo.

Esses nossos políticos que se demonstraram em tão pouco tempo economistas e ministros do planejamento deveriam ter feito levantamento de custos e benefícios para dar apoio técnico e financeiro às empresas para que pudessem explorar os espaços do novo empreendimento, com hotel, restaurante, locadora de veículos, táxi, telefone, ônibus e uma infinidade de infra-estrutura que só virá com o passar do tempo e sempre faltando um pedaço por falta de planejamento. É muito bom sonhar com os ovos de ouro da galinha alheia, difícil é conviver com o pesadelo da nossa realidade.

Fernando Collor, quando assumiu o governo com sua política de caçador de marajás, uma das suas primeiras atitudes depois do desastroso plano econômico foi pôr à venda todas as mansões da Asa Sul de Brasília, dando ele na época um monte de endereço ao dinheiro que seria arrecadado com a comercialização das mesmas. Hoje, nem dinheiro e nem mansões. Estão querendo fazer o mesmo com o nosso legendário Aeroclube, com o intuito de socorrer a periferia. Seria muito bom se isso fosse sério, já que é normal usar verbas de um projeto para socorrer outro. Lembra-se do dinheiro das multas da Emdurb que fora usado para outros fins no governo Nilson Costa e ele disse que era legal?

A periferia não está como está por culpa do velho aeroporto, mas sim pela irresponsabilidade dos setores de comercializações e especulações imobiliárias, as quais lançam seus loteamentos sem a menor infra-estrutura onde falta de tudo: água, luz, esgoto, núcleos de saúde e escolas, com a promessa de que tudo isso vem brevemente, só que quando são cobrados, pedem para os moradores procurarem a prefeitura alegando ser dela a responsabilidade pela melhoria, afinal, a mesma cobra imposto para isso. Concordo e ao mesmo tempo fico revoltado, porque quando o filho é bonito e saudável, todos querem ser o pai, mas quando é feio, é abandonado na lata do esquecimento, igual à ponte Airton Senna, a ligação Geisel-Jd. Marambá, prolongamento da avenida Getúlio Vargas, pavimentação da avenida Rodrigues Alves e uma infinidade de filhos órfãos por falta de um pai responsável.

A história do aeroporto é apenas o prefácio de uma grande enciclopédia e não é só a periferia, mas toda a nossa Bauru que pede socorro por esses quase vinte anos de más administrações. Vereadores, prefeitos e secretários, tentem sair um pouco do seu lado “eu” e tentem entrar só por um instante no lado “nós” e verão que em Bauru existem coisas muito mais urgentes a serem resolvidas do que se preocuparem em vender algo que não está à venda nem ao menos vos pertence. Não foi para isso que foram eleitos.

Claudinor Pedroso - RG 13.908.437