09 de julho de 2026
Cultura

‘Vidas Opostas’ recebe elogios

Por Andrezza Capanema | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Com uma trama ousada - que coloca os protagonistas em cima de um morro carioca dominado por traficantes -, a novela “Vidas Opostas”, que vai ao ar às 22h na Record, tem dado o que falar. Além de ser elogiada por críticos de TV, o folhetim registra média de 12 pontos no Ibope e chegou a marcar, no dia 17 de janeiro, média de 16 pontos.

Nem a estréia do “Big Brother Brasil 7” (Globo), dia 9, que preocupou autor da novela, Marcílio Moraes, abalou a audiência da trama, que tem mantido a média mesmo batendo de frente com o “reality show”. A comemoração tem um gosto a mais, partindo do princípio que a emissora arriscou ao colocar a violência urbana como cenário principal da história de amor de Joana (Maytê Piragibe) e Miguel (Léo Rosa).

A ousadia vinha acompanhada do risco de fracassar. Afinal, o horário era experimental, e o tema, bem delicado. O território que serve como palco de uma versão moderna do clássico “Romeu e Julieta”, porém, é apontado por especialistas em teledramaturgia como um dos principais destaques da trama. “A novela inovou ao mostrar a vida nos morros do Rio de maneira escancarada”, diz Mauro Alencar, doutor em teledramaturgia.

Maria Lourdes Motter, vice-coordenadora do núcleo de telenovela da ECA-USP, faz coro. “A novela deu certo. É uma trama forte, que trata de temas atuais. A Record acertou na fórmula.” Para a especialista, “Vidas Opostas” resgata um dos princípios que marcaram a história do produto no Brasil. “Ela está sendo corajosa ao mostrar os problemas do morro e a corrupção policial. Em seu formato original, a novela não se obrigava a discutir temas reais, mas a telenovela construída no modelo brasileiro incorporou isso à produção. E não pode abrir mão dessa característica. Novela no Brasil tem que ter função educativa”, declara.

Convidado pela Record para testar o horário das 22h, o autor Marcílio Moraes concorda que a opção em mostrar a realidade na TV foi arriscada. “A violência é uma das questões mais candentes da realidade brasileira, mas é tratada de forma muito superficial pelas autoridades. As novelas mostram os pobres de maneira muito folclórica. Eu quis mostrar a realidade, o telespectador esperava por isso. O primeiro risco era pôr a favela em uma novela.”

Moraes defende que, apesar da inovação, faz novela à moda antiga. “As tramas hoje se parecem com séries. As histórias começam e acabam no mesmo capítulo. Meu texto tem uma continuação”, afirma o novelista. Maria Lourdes completa que a construção de personagens fictícios com características mais realistas conferem um charme extra ao enredo. “A mocinha não é um anjo, tem qualidades e defeitos. Há alguns dias, ela vivia um dilema ao esconder do namorado que tinha um ex criminoso. Era uma coisa que qualquer ser humano faria.”

O sucesso tem sido sentido pelo elenco. “Só escuto coisas positivas nas ruas. As pessoas se comovem com a trama porque se aproximam dela. ‘Vidas Opostas’ mostra a realidade sem glamour”, fala Maytê Piragibe. “O romance da Joana e do Miguel é o ponto de equilíbrio da novela. O telespectador vê uma realidade dura, mas pode sonhar com o amor deles”, completa Léo Rosa.

Mas a trama também soube aproveitar de fórmulas manjadas na TV. As cenas de violência muitas vezes são refrescadas com humor.

Os críticos aplaudem a produção, mas alertam que ela exige cuidados. Maria Lourdes fala que o bom desempenho no Ibope deve ser festejado com cautela. “O autor não pode se entusiasmar com os números. Hoje, a novela é sucesso de crítica e de público, mas pode fazer concessões só para agradar ao telespectador e perder qualidade. Já tenho percebido exageros”, afirma a especialista.

O sociólogo Laurindo Leal Filho completa: “A novela segue o padrão da telenovela no Brasil: é bem feita tecnicamente. Mas tenho dúvidas se é necessário tanta violência. Poderia ser mostrada de maneira mais leve.” A Record não tem medido esforços financeiros para atingir essa repercussão.