08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Flavião


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Trabalho hoje, janeiro de 2007, no centro de São Paulo, mas em agosto ou setembro de 1969 (misereri nobis, 38 anos quase) trabalhava no centro de Bauru.

Melhor, havia passado (juntamente com o Nicolielo, por força de articulações do Miziarinha saudoso) a trabalhar na Batista de Carvalho. Ficava ali o Diário de Bauru.

Duro firmar a vista assim de tão longe. Um balcão na recepção, enquadrado por uma porta que levava a um corredor de paralelepípedos, tendo, à esquerda, a redação e as oficinas e, ao fundo, o almoxarifado.

(Corre esta evocação o risco de algumas imprecisões. Os protagonistas, no entanto, estão se retirando de cena – e historiador, escrevi certa vez no DB, é aquele que sobra pra contar a história.)

Termos que devem ter desaparecido até das palavras cruzadas – linotipo, prova de escova, emenda, clichê, rotoplana – corriqueiros eram no dia-a-dia jornalístico daquele século XX.

Duas salas compunham o almoxarifado. Uma das quais destinada à guarda da coleção de jornais da casa e publicações outras.

Bela sala. Tranqüila, aconchegante. Tanto que o redator-chefe, Zarcillo, ali instalava, pelas dez da noite, um rádio e um gravador (de rolo, pessoal, de rolo), pra captar o noticiário da Eldorado, do qual depois, quando do fechamento da edição do dia, pinçaria algumas notas nacionais e internacionais, que ajudariam a compor a primeira página. Nosso brioso órgão de imprensa, afinal, não era só local.

Colaborara até então no Jornal da Cidade: no decorrer da tarde e no recesso do lar, escrevia uma crônica que no cair da noite depunha sobre a mesa do editor Nilson Costa. Maior low profile possível.

No Diário, na condição não mais de colaborador, mas de contratado com registro em carteira, a presença – como disse uma vez um amigo inglês – em carne viva foi exigida.

Já que assim, naquela sala do almoxarifado resolvi me instalar. Bela sala. Tranqüila. Aconchegante.

Durou a coisa pouco mais que não sei quanto.

Durou até que, digamos logo, lá irrompeu o Flavião. Flávio De Angelis. Flavião, pois não. Ex-jogador de basquete, o homem era uma tora de madeira de lei e compunha com Zarcillo Barbosa o comando redatorial do Diário de Bauru.

– Pega essa máquina – foi o que ele me disse.

Assim, sem mais, levantou ele a cadeira em que eu estava sentado, segurando a máquina de escrever, conforme ele ordenara, e, sem esforço e rindo muito, nos baldeou a todos pra redação.

De tantos e todos lembrares do bauruense medular Flavião, este o maior.

Acima até do texto – que esfrangalhou de emoção meus pais em Lindóia – por ele publicado na coluna Panorama, quando fui considerado ganhador de um concurso pra redação de humor, promovido pela Globo.

Ser carregado pelo Flavião por aquele corredor e deposto na redação, diante de uma mesa que ocupei por talvez três anos.

Após essa temporada no DB, em convivência que seria praticamente diária, não fossem as folgas dominicais (segunda o jornal não circulava), poucas vezes mais vi o Flavião.

O tempo vai sem que a gente o sinta, notou o Sr. Dante Alighieri. Vassene il tempo, e l’uom non se n’avvede.

O Flavião era uma fortaleza e portador de sangue calabrês: atributos que de certo modo garantiam que lerelês tais como vamos nos encontrar, precisamos conversar hora ou outra ainda aconteceriam.

Não acontecerem. Aconteceu foi um telefonema de Bauru: seu irmão manda avisar que o jornalista Flávio De Angelis morreu.

Morto o Flavião.

Como sempre a morte inevitável esse trem incompreensível.

Janeiro 17 de 2007. Quarta-feira. Morto o Flavião.

Já se fazia meio-dia – hora de almoço – naquele centro de São Paulo. Eisbein com chucrute no Bar Léo. Galinhada no Del Mar. Feijoada na maioria dos botecos de respeito que a gente gosta.

Nada daquilo combinava e tinha a ver – a não ser.

A não ser – Deus pode não ser dois, grande é, todavia.

Ponto Chic, Largo Paissandu.

Pois ali, sob o olhar vigilante do busto de Casimiro Pinto Neto, criador perene de um invento mágico, comandei – com caixa-alta e exclamação – uma homenagem à altura do Flavião:

– Um Bauru!

José Benedito de Souza Freitas