A experiência no fora de estrada nos ensina muita coisa útil para o dia-a-dia, a começar pelo respeito às leis, tanto da natureza, da física quanto do trânsito. O piso adverso, seja ele liso e escorregadio, alagado ou pedregoso, requer uma atenção extra que normalmente não temos no asfalto. No asfalto seco, as características de aderência são muito grandes, permitindo que desenvolvamos velocidades altas mesmo em curvas, pois os pneus dos automóveis são próprios para isso. Outro dia falamos sobre dirigir na chuva. Mas, o que acontece em caso de lama?
No piso molhado somos colocados em um outro ambiente e devemos nos adaptar a ele, nunca ele a nós. É sabido que a hora mais crítica para dirigir na chuva é logo no início, quando começa a chover e a molhar a pista. Toda a sujeira, borracha e óleo acumulados no asfalto, em contato com a água da chuva, tornam o piso muito liso e propício para derrapagens. É nesta hora que a maioria dos acidentes ocorre, em que os motoristas deveriam reduzir a velocidade e aumentar a distância do carro da frente. Uma brecada mais forte e pronto, derrapa e bate na traseira do outro.
Na lama a situação é muito pior para um automóvel, que não tem pneus adequados. Os pneus de asfalto têm sulcos que servem para drenagem de água da chuva, mas definitivamente não fornecem tração em lama ou barro. Os jipes, ao contrário, agradecem quando chove e a estrada fica ruim, afinal, estão preparados para isso. Já os carros foram feitos para o asfalto.
Caso tenha que se deparar com uma estrada de terra sob chuva, basta tomar alguns cuidados. Carros de tração dianteira se comportam melhor na lama do que os de tração traseira, contrariando a crendice popular. Como o piso enlameado perde aderência, existe a tendência de escorregamento lateral das rodas motrizes em função do efeito de torque, e esta característica é mais facilmente controlada pela tração dianteira. A tração traseira tem a tendência de entrar em pêndulo e balançar a traseira, mais difícil de controlar.
Outra dica é sempre andar mais devagar do que o usual em casos de lama na pista, principalmente nas curvas. Não se arrisque e reduza em até 50% a velocidade se necessário. Os pneus de asfalto, quando trafegando na lama, enchem rapidamente os sulcos de barro, pois não foram projetados para a autolimpeza, tornando o pneu totalmente liso e acabando com a aderência. Procure andar pelo meio da estrada sempre que possível e sem trânsito, evite andar pelas laterais perto de barrancos, pois, em caso de escorregar, não tem como evitar a batida.
Outro problema é não saber a consistência e profundidade da lama. Antes de se arriscar, verifique o piso e avalie se dá mesmo para passar. Lembre-se que automóvel não é jipe!
Use sempre uma marcha mais longa do que a usual, que dará menor torque nas rodas e, conseqüentemente, tenderá a patinar menos. Se precisar, saia em segunda marcha. Nunca acelere forte, sempre de forma gradativa. O mesmo se dá com os freios. Uma pisada forte no freio apenas causará uma derrapagem totalmente incontrolável, pois o carro irá na direção que sua inércia mandar e a inclinação do piso permitir. Se tiver que brecar ou reduzir a velocidade, é mais aconselhável usar o freio motor, reduzindo uma marcha e aliviando o acelerador. Na verdade, quando dirigir em piso escorregadio, seja sempre suave com acelerador e freio.
Ao atravessar com um automóvel um trecho alagado com lama, deve-se levar em conta alguns fatores como a profundidade (lembre-se que não dá para ver se tem buracos no fundo), a distância a ser percorrida dentro d’água, etc. Mais uma vez, vale o bom senso. Pode atravessar sem problemas qualquer região alagada com profundidade até o meio da roda (aproximadamente 30 centímetros), mas vá com velocidade constante, não pise nunca na embreagem nem troque de marcha dentro d’água e controle o carro apenas com o acelerador. Vai que dá!
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.