Na última quarta-feira, o Instituto Adolfo Lutz confirmou o primeiro caso de leishmaniose referente a 2007 em Bauru. A vítima é um garoto de 4 anos, morador do bairro São João da Boa Vista, zona oeste, que agora está recebendo tratamento no Hospital Estadual (HE). Desde o ano passado, as autoridades sanitárias já notificaram 66 casos da doença na cidade, com quatro óbitos no total.
A situação vem tirando o sossego dos especialistas e dos responsáveis pela saúde dos bauruenses. “Atualmente esse é o problema que mais nos causa preocupação”, garante o chefe da seção de controle de zoonoses do município, o veterinário Luiz Ricardo Paes de Barros Cortez.
Para o veterinário Marcos Antônio Silvério, a situação já está fora de controle. “A leishmaniose veio para ficar, e não sou eu quem dizendo isso. Diversos especialistas da área de saúde já reconhecem que dificilmente conseguiremos erradicá-la”, afirma.
O problema, explica o veterinário, é que o mosquito palha, responsável pela dispersão da doença, adaptou-se com perfeição às condições de vida disponíveis na cidade. O inseto, que se contamina ao picar cães ou roedores infectados com o protozoário, utiliza matéria orgânica em decomposição para se reproduzir.
“Aí é que reside o problema. Esse tipo de material existe em abundância na cidade, e não apenas por conta do lixo ou do esgoto a céu aberto. Uma jabuticabeira carregada de frutos, por exemplo, é uma fonte inesgotável de alimento para as larvas do mosquito”, lembra Silvério.
Cortez concorda que é quase impossível impedir que o inseto se reproduza. “Uma forma extrema e improvável de se acabar com a matéria orgânica em decomposição seria cimentar toda a cidade e eliminar todas as árvores. Mas, se isso fosse feito, aqui se tornaria um lugar inabitável”, diz.
A utilização de inseticidas contra os mosquitos adultos é uma alternativa considerada pouco viável por Cortez. “Há o risco de que os insetos criem resistência ao veneno. Com o passar do tempo essa solução acaba se tornando ineficaz”, explica.
Atualmente a principal medida de controle da doença adotada pela secretaria de saúde é eliminação das fontes de infecção no meio urbano. Em outras palavras, os cães contaminados estão sendo submetidos à eutanásia.
A ação é controversa e vem causando polêmica na cidade. Voluntários das entidades de defesa dos animais consideram a medida ineficaz. “Seria interessante que, antes de matar os cães, a prefeitura tentasse combater as condições de proliferação do mosquito palha”, pensa a bióloga Fátima Schroeder, presidente da Organização Não-Governamental (ONG) bauruense Naturae Vitae.
O sacrifício de cachorros é criticado, inclusive, por alguns veterinários. “Não adianta matar os cães, pois na verdade eles funcionam como pára-raios nessa situação. Se não existissem, é provável que a doença viesse a se alojar preferencialmente em seres humanos. Além disso, a leishmaniose tem outros hospedeiros, como gambás e ratos, que não estão sendo combatidos”, ressalta Silvério.
Apesar de ser favorável à eutanásia dos animais contaminados, a veterinária bauruense Ana Lúcia Geraldi Segalla acredita que a castração seria uma solução mais efetiva para o controle da população animal do município. “Algumas pessoas têm uma dúzia de cães e nunca procuraram um veterinário. É um perigo todos esses animais se reproduzindo sem os cuidados necessários”, lembra.
Ao que tudo indica a castração animal ficará para mais tarde pois, no momento, a secretaria de saúde vem dando prioridade a um projeto que visa conhecer a população canina da cidade. No final do ano passado, a seção de controle de zoonoses contabilizou cerca de 60 mil cachorros domiciliados em Bauru. O próximo passo, garante Cortez, será a colocação de plaquetas de identificação nos animais.
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A doença
A leishmaniose é uma doença infecciosa causada pelo protozoário Leishmania, típica de países de clima tropical. Proveniente do meio rural, a moléstia passou a fazer parte da realidade das grandes cidades depois que o mosquito palha, responsável pela transmissão, conseguiu se adaptar com sucesso ao novo ambiente.
Colaborou para isso a farta presença de matéria orgânica em decomposição nas áreas urbanas (principalmente em decorrência do lixo e dos esgotos a céu aberto), fator que favorece a reprodução desenfreada do inseto. Hoje a leishmaniose se tornou endêmica em vários municípios do Estado. Em Bauru, só no ano passado, foram registrados 65 casos da doença, com quatro mortes no total.
Em seres humanos, a leishmaniose se manifesta principalmente de duas formas. A cutânea, também conhecida como “Úlcera de Bauru”, costuma ocasionar o surgimento de lesões na pele e nas mucosas do doente. Já a forma visceral, bem mais grave, afeta órgãos internos da pessoa infectada.
Os sintomas mais comuns, tanto em seres humanos quanto em cães (que no meio urbano atuam como uma espécie de reservatório do protozoário), são febre, inchaço nos gânglios, além de aumento do fígado e do baço. Nos animais é comum também o surgimento de feridas pelo corpo e crescimento exagerado das unhas.