Um fazendeiro contratou um novo empregado e, para testá-lo, ordenou que ele fosse cortar uma pilha enorme de lenha. No final da manhã, o fazendeiro foi fiscalizar o serviço do empregado e, para a sua admiração, todo monte de lenha estava cortado em pequenos pedaços e estes empilhados. No dia seguinte, o fazendeiro resolveu dar um serviço mais leve ao novo empregado e ordenou que fosse separar as batatas dizendo: “Você só precisa recolher nas caixas as batatas boas e jogar fora as batatas ruins”.
No final do dia, o fazendeiro passou perto do empregado e, para o seu espanto, nem metade das batatas haviam sido separadas. O fazendeiro, então, perguntou ao empregado o que estava acontecendo. “Ah!”, respondeu o empregado, “para mim é muito difícil distinguir o que é bom e o que é ruim”.
Sem dúvida alguma, ninguém deseja sofrer. Porém, por mais que nos esforcemos para ter uma vida agradável, não podemos deixar de admitir que o sofrimento pertence à nossa existência. A palavra sofrimento pode representar inúmeras situações que transformam o nosso viver em uma desagradável experiência. Chegar à conclusão de que estou em uma situação difícil é uma capacidade que qualquer pessoa pode ter. Cícero, por exemplo, questionava que é inútil dizer que isto não é um mal, pois, quando estou doente e sofrendo realmente, isto é ou não um mal?
A resposta é clara. Porém, nós somos seres humanos e como tais possuímos uma razão através da qual podemos transformar nossa realidade. Se o animal irracional possui um sofrimento, ele simplesmente sofre. Em relação a qualquer ser vivo, o simples sofrer irá acontecer inevitavelmente. Mas os seres humanos podem mais. Nós podemos ir além do simples sofrimento.
Em primeiro lugar, nos ajuda muito a aceitação racional do sofrimento ou daquilo que chamamos de mal. Por mais que tentemos evitá-los, fugir dos sofrimentos da vida não é o melhor caminho. Qualquer que seja e por mais acidental que possa parecer, o sofrimento, na realidade, faz parte da ordem do mundo e, muitas vezes, de seu encadeamento necessário. A partir desta aceitação é fundamental que saibamos nos distanciar o máximo possível do sofrimento para refletirmos sobre ele.
Em um famoso texto construído em diálogo, um discípulo pergunta a Epiteto se podemos tirar proveito de todas as dificuldades, de todas as situações embaraçosas da vida. O filósofo é taxativo: “Sim, de todas!” Mas de que maneira descobrimos que aquilo que experimentamos como um mal, ou acreditamos ser um mal, na realidade não o é? Isso pode ser descoberto através de uma operação essencialmente de ordem intelectual. Neste sentido, o filósofo Epiteto é radical frente a qualquer forma de sofrimento.
Segundo o pensador, aquilo que chamamos de males na vida, não deveriam ser encarados assim. A postura ideal para Epiteto é considerar o mal como um bem. Isso mesmo, por mais difícil que seja, o mal deveria ser compreendido como um bem, ou seja, uma situação da qual podemos tirar algum proveito ou alguma utilidade. Por mais difícil que seja e por mais dolorido que seja, esta experiência ruim deve se tornar uma contribuição para a nossa formação como pessoas humanas. Se utilizarmos a razão frente ao sofrimento, no mínimo poderemos mais tarde compreender outras pessoas quando estas estiverem passando por sofrimentos semelhantes.
Em outras palavras, o sofrimento nos faz solidários. Ser solidário é a capacidade, a sensibilidade de se colocar na situação do outro. Além da solidariedade, o sofrimento pode nos abrir a percepção para sabermos o quanto somos fortes. Para isso é necessária a análise de nossa atuação em outros momentos difíceis do passado. Momentos diante dos quais imaginávamos que não iríamos suportar tal situação ou obstáculo, mas que, de uma forma ou de outra, soubemos suportar. Por fim, transformar um mal e um bem é o exercício exigente da razão em descobrir as transformações concretas deste sofrimento em nossa vida. Não para constatarmos simplesmente os estragos, mas também a nova constelação que se formou ao nosso redor e, a partir dela, desenvolver novas posturas, atitudes, relacionamentos, etc.
Portanto, a classificação do mal e do bem pertence à nossa visão, à nossa perspicácia, à nossa opinião. Diante do sofrimento podemos nos desesperar ou nos irarmos de tal forma que venhamos a nos prejudicar mais ainda. Porém, diante do sofrimento podemos nos conscientizar que possuímos uma possibilidade de aprender, de crescer, de amadurecer. Esta transfiguração do mal como um bem acontece na medida em que o sofrimento é visto como um teste, vivido, praticado pelo sujeito como uma prova.
Para isso, o ser humano precisa se libertar da filosofia consumista e capitalista que nos ensina a fugir do sofrer e nos refugiar nas ilusões da compra, da realidade virtual, do divertimento. Sofrimento não é ausência de felicidade e nem sempre uma vida feliz se desenvolve sem o sentimento de dor.