08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Exames experimentais de avaliação do Cremesp


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Como médico, sinto-me na obrigação de informar que há muitos anos os oftalmologistas passam por uma avaliação pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia, tendo em vista que, há cerca de 3 décadas, me submeti a uma dessas provas no Instituto Penido Burnier, de Campinas. O exame constava de quesitos discursivos, seguidos de uma parte prática, em que éramos obrigados a examinar um paciente na frente de um dos médicos daquela Instituição. E igualmente como a oftalmologia, procedem as diversas especialidades da Medicina. É claro que esta prova possui um aspecto apenas normativo, e não impeditivo da capacitação funcional, como ocorre com a prova da OAB. O mesmo ocorre com o Exame Experimental de Avaliação do Cremesp, hoje em sua segunda edição.

Talvez , o índice baixo de aprovação nesses exames seja explicado por isso. Como o sucesso nos exames da OAB é um pré-requisito para o exercício da profissão de Advogado, os bacharéis em Direito se esmeram em estudos próprios para enfrentá-los, havendo mesmo vários Cursos preparatórios para esse fim. De certa forma, o que são avaliados nesses Exames, na verdade, são os "cursinhos preparatórios" e não as Faculdades de Direito. Além disso, pelo fato da Medicina estar intimamente ligada aos avanços tecnológicos da Física, Química, Estrutura Molecular, etc, constitui um fato normal o aparecimento de dezenas de especialidades novas como a Medicina Genética e Intramolecular, e, ultimamente, a de implantação de células-tronco, entre outras, o que leva a aluno a setorizar seus estudos nos últimos anos do Curso Médico. Um dos objetivos do Exame do Cremesp, restrito somente ao Estado de São Paulo, é avaliar a qualidade do ensino ministrado nas 28 faculdades de nosso Estado. Nos parece até salutar que os estudantes, que voluntariamente se submetem a essa avaliação, não se preparem exclusivamente para ela. Desta forma, a avaliação alcançará mais confiabilidade.

Por outro lado, não nos parece plausível temer-se que a baixa aprovação num Exame Experimental do CRM constitua fator de risco para a população. Em 90% das situações de emergência o médico não atua sozinho, mas em equipe. Não poderia ser diferente na medida em que nesses momentos ele necessita do apoio dos Raios-X, das Análises Química , da Hematologia (transfusões) e das Imagens (ressonância e ultra-som). É claro que há situações excepcionais como um parto dentro de um elevador, ou a necessidade de se abrir um buraco na traquéia de um paciente para que não morra asfixiado, como foi praticado por um colega nosso numa vítima de trânsito em plena via pública do Rio. Todavia, o inverso também ocorre, quando nos lembramos de um médico-chefe do PS Souza Aguiar, no Rio, que faleceu de enfarte na frente de seus colegas de equipe, na sala dos médicos daquele nosocômio.

Todas as tentativas, inclusive massagens e injeção de adrenalina a céu aberto, aplicadas diretamente no coração, não foram suficientes para salvá-lo. Além disso, nós também contamos com nosso Vademecum, que nos salva em situações embaraçosas. Certa vez, num plantão em um Sanatório de Doentes Mentais, um paciente apresentou-se com erisipela nas pernas, e eu, oftalmologista de ofício, tive de apelar para o Merckezinho, para proceder a medicação adequada. Imagino, outrossim, que a classe médica se sinta reconfortada com as preocupações da sociedade com sua formação acadêmica. Mas garanto que ela apreciaria mais caso houvesse um movimento pelo encaminhamento legítimo do CPMF para seu objetivo inicial, a saúde humana.

Não cremos que o Sistema de Saúde tenha recebido um centavo de real dessa fonte. E não se diga que o culpado é só o FHC, por não ter honrado uma promessa feita ao Adib Jatene, de garantia desse encaminhamento. Afinal o Lula já está há 5 anos no poder e nada fez nesse sentido. Caso isso fosse concretizado, talvez saíssemos de um sistema que remunera consultas ao preço de um misto quente e cirurgias ao preço de um par de calçados. Um pediatra, com 16 consultas / dia e que recebe algo em torno de mil reais líquidos, estaria recebendo R$ 2,84 por consulta. Será que esse é o preço da saúde de nossas crianças? Para concluir, independentemente dessa aberração, queremos salientar que a classe médica tem fibra, pois segundo dados do Ibope, publicados na Revista Carta Capital de setembro de 2005, nossa classe é a que obtém mais confiança da população geral, com 81% de aprovação. Basta dizer que ficamos à frente da Igreja Católica com 71% e da as Forças Armadas com 69% . Os Jornais com 63% de aprovação e os Engenheiros com 61% vêm a seguir. Infelizmente, seria burrice prometer um doce para quem conseguisse descobrir os 4 últimos colocados, que são, pela ordem, Senado, Câmara dos Deputados, Partidos Políticos e na lanterninha os Políticos, com 8% de confiabilidade contra a desconfiança de 90% de nossa população. Mais uma vez os bons estão a pagar pelos maus.

Rui Bertoti – Médico e ex-professor de Direito - Cremesp 11 435 e ex-Cremerj (Rio) 9823