Um dos componentes mais discretos do veículo certamente é o conjunto diferencial, que praticamente dispensa manutenção e raramente dá problemas. As coisas só ficam feias mesmo quando nós forçamos a barra e o sobrecarregamos mais do que o usual, mas aí a culpa não é dele. Por ser muito robusto, dura a vida toda se bem tratado. A pouca manutenção resume-se a três pontos: verificar o nível do óleo lubrificante, verificar vazamentos pelos retentores e manter o respiro limpo e desobstruído. Agora, a pergunta que não quer calar: quem de vocês alguma vez já se preocupou em verificar isso no seu carro? Se responder que sim, ótimo, mas saiba que a imensa maioria nunca colocou a mão no diferencial do seu carro. Mesmo assim, ele continua a trabalhar bem e discretamente.
Sua função é a de permitir que as rodas de um mesmo eixo girem em rotações diferentes quando necessário, em uma curva, por exemplo. Sabe-se que em uma curva a roda do lado interno gira a uma rotação menor do que a roda do lado externo. Isto por que o perímetro a ser percorrido é diferente, pois o raio da curva também o é, para cada roda. A idéia que permite esta diferença de rotação entre as rodas de um mesmo eixo é bem engenhosa. O motor envia torque e movimento através da transmissão até o diferencial, que pelo eixo do pinhão aciona a coroa do diferencial, sendo esta ligada ao semi-eixo de uma das rodas. Portanto, o motor está diretamente ligado a uma das rodas apenas.
O semi-eixo da outra roda do eixo motriz está conectado à coroa do diferencial através da caixa de satélites, que são engrenagens cônicas pequenas engrenadas a 90º com as engrenagens planetárias acopladas aos semi-eixos. Isto faz com que, quando o carro estiver andando em linha reta, ambos os semi-eixos recebam o mesmo torque e tenham a mesma rotação, portanto o carro traciona igualmente com as duas rodas. Ao fazer curvas, o diferencial “sente” a diferença de rotação e então a caixa de satélites inicia um movimento compensatório, girando e absorvendo esta diferença de movimento relativo entre os semi-eixos.
O diferencial foi um dos inventos mais brilhantes do automóvel e que possibilitou seu amplo uso sem restrições de piso, pois caso não existisse a cada curva teríamos um arraste de uma das rodas e o conseqüente desgaste de pneus e má dirigibilidade.
Mas há situações em que o diferencial atrapalha mais do que ajuda e que seria mesmo melhor não tê-lo. É no caso de piso com pouca aderência, como lama, barro, neve, grama molhada, chuva ou mesmo buraco. Isto por que em mecânica também vale a lei do mínimo esforço e o torque das rodas procura o melhor caminho para escoar. Se tivermos uma roda em piso seco e outra na lama, o torque procurará o caminho mais fácil e fará com que a roda na lama comece a patinar enquanto a outra no seco fica parada, deixando o carro atolado.
A solução encontrada foi com um dispositivo de trava momentânea da caixa de satélites, o chamado bloqueio de diferencial. Este bloqueio pode ser feito de forma automática (o próprio diferencial o aciona quando necessário) ou manual, acionado pelo motorista, por acionamento mecânico, elétrico ou pneumático. É extremamente útil em jipes e veículos fora de estrada, para sair de situações de atolamento ou quando se perde o contato de uma roda com o chão, por desnível ou buraco. Nestes casos, o torque é distribuído igualmente para ambas as rodas e a que estiver com mais aderência tira o veículo do sufoco. Mas não é só no fora de estrada que o bloqueio é útil. Em carros esportivos de alto desempenho, como o torque do motor é muito alto a tendência de patinarem as rodas é grande, o bloqueio automático de diferencial é fundamental para que ambas as rodas recebam o torque. Este bloqueio pode ser total ou parcial, deixando um pequeno escorregamento nas rodas. Mas nunca se deve dirigir em pistas de asfalto com o diferencial bloqueado, pois poderá causar problemas de dirigibilidade em curvas.
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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.