Há duzentos milhões de anos atrás, havia um grande continente, hoje conhecido como Pangaea. Mais tarde, cerca de sessenta e cinco milhões de anos após, esse supercontinente separou-se, parte se locomovendo para o norte formando um outro continente chamado Laurasia e parte deslizando para o sul, formando o continente Gondwanaland. Nesses dois períodos a América do Sul estava ligada à África. O Rio Grande do Norte era uma extensão da África onde é hoje a Nigéria. Coincidentemente, hoje a Nigéria é o país de maior população da África e o Brasil é o mais populoso da América Latina.
Além da mesma origem geográfica, o Brasil tem muitos traços culturais que nos aproximam desse nosso irmão de nascimento. Com os resultados das eleições de 2006, o Brasil escolheu um modelo político-econômico muito semelhante àquele da Nigéria.
Como no Brasil, Deus foi extremamente generoso com a Nigéria dando a esse país uma imensa bênção, cerca de 183 trilhões de pés cúbicos do melhor e mais caro petróleo do mundo, o “Bonny Light”, que contém muito pouco enxofre, por isso é fácil de ser transformado em gasolina e diesel. Como o Brasil, a Nigéria também começou seu desenvolvimento econômico no ano do descobrimento do Brasil, em 1500, como o maior exportador de escravos da época. Também como o Brasil, foi um grande exportador de óleo de babaçu e cacau. Mais uma coincidência foi o fato de também ter sofrido sob uma ditadura militar por alguns anos, até se tornar uma democracia como a nossa.
Hoje a Nigéria é o sexto maior exportador de petróleo no mundo, gerando mais de 45 bilhões de dólares anuais em rendimento público, pois, como a Petrobras no Brasil, a estatal Nigerian National Petroleum Corporation tem o monopólio do petróleo. Essa quantia é recolhida pelo governo federal que depois distribui uma pequena quantia aos Estados, uma parte considerável é alocada para a educação, mas nunca chega ao seu destino, “o câncer da corrupção” desvia a verba para contas pessoais de burocratas e políticos como um Grupo Internacional de Crise descobriu depois de detalhado estudo. O antigo governador de Bayelsa, Diepreye Alamieyeseigha, desviou milhões de dólares para bancos estrangeiros e comprou mansões nos Estados Unidos e mandou seus filhos estudarem em escolas particulares em Londres. O petróleo contribui com 95% da geração tributária do país, a agricultura e pesca praticamente desapareceram devido a destruição dos manguezais e poluição causada por vazamentos de petróleo, cerca de oitenta e cinco por dia segundo a informação oficial, mas acredita-se que haja dez vezes mais vazamentos do que o governo admite e a queima continua do gás natural que não é aproveitado causando chuvas ácidas que destroem a vegetação e os tetos das casas que geralmente são de zinco.
No coração do delta do rio Niger, o Texas da Nigéria, a região mais rica do país, a pobreza é extrema, as escolas são constantemente destruídas por gangs violentas de jovens revoltados. Embora esteja entre os maiores produtores de petróleo constantemente falta combustível nos postos de gasolina e a Nigéria tem que importar gasolina, as ruas são semelhantes às ruas de Bauru com enormes crateras devido ao descaso público. Enquanto nos Emirados Árabes, que produz cerca da mesma quantidade de petróleo que a Nigéria, a renda média anual é de 43.400 dólares, na Nigéria é de 1.400 dólares.
A cruel realidade é que após cinqüenta anos de extração de petróleo na Nigéria a classe política burocrata está cada vez mais rica e poderosa enquanto a grande maioria da população está cada vez mais pobre e tem que recorrer ao crime, sabotagem, seqüestros, combates de guerrilha e assassinatos como meio de vida.
Benedito S. Guedes de Azevedo