Escolhido melhor diretor no Festival de Cannes do ano passado - onde também levou o Prêmio do Júri e o Grande Prêmio Técnico -, Alejandro González Iñárritu brincou ao receber o Globo de Ouro de melhor filme dramático, neste ano, das mãos do “governator” Arnold Schwarzenegger: “Senhor governador, meus documentos estão em dia, eu juro!”
A frase resume o tema de “Babel” com a propriedade de um imigrante que vive nos Estados Unidos há 11 anos e que conhece, provavelmente, melhor do que seu público, o que é ser alvo de preconceito. No último filme de sua trilogia de histórias entrecortadas (“Amores Brutos”, “21 Gramas” e “Babel”), o foco é a incomunicabilidade dos homens, que vivem no caos de línguas, sentimentos e julgamentos diferentes.
Com US$ 25 milhões, o diretor rodou a história em três continentes e quatro línguas: árabe, japonês, espanhol e inglês. Nascido em 1963, no Méximo, Iñárritu possui apenas dois curtas, “El Timbre” e “11 de Setembro” (parte do filme coletivo com outros dez diretores de várias partes do mundo) além da trilogia.
Em passagem pelo Brasil no ano passado, para apresentar “Babel” no Festival do Rio, Iñárritu falou à reportagem.
Pergunta - A trilogia é marcada pela narrativa fragmentada. Ela é mais um personagem das suas histórias?
Alejandro González Iñárritu - A maior responsabilidade de um contador de histórias é saber como contá-las para criar uma tensão dramática. Esta estrutura é muito eficaz neste sentido. Quando há muitas histórias paralelas, a melhor forma de contá-las é essa que eu uso.
Pergunta - Como é possível manter sua independência autoral dentro da sistemática dos grandes estúdios?
Iñárritu - Sempre tive total liberdade na escolha do elenco, orçamento ou local do mundo onde seria filmado. Começo o filme sempre com a condição de que eu tenha total independência desde a primeira linha do roteiro até o último minuto de edição. Sempre tive sorte de trabalhar com gente que acredita no meu trabalho. Mas qualquer porcaria que aparecer no filme é minha responsabilidade, de mais ninguém.
Pergunta - Em “Babel”, há uma personagem mexicana que é expulsa dos Estados Unidos. Porque sentiu a necessidade de fazer este personagem?
Iñárritu - Há milhões de mulheres como a Amélia nos EUA, que abandonaram seus filhos para cuidar dos outros. São cidadãos invisíveis, sem direitos, muitas morrem maltratadas. Estas histórias eram uma necessidade moral de se contar.
Pergunta - Qual seria a Babel contemporânea? E o que pensa da contradição da globalização, que oferece tecnologias agregadoras mas formou uma sociedade mais isolada?
Iñárritu - Quando caíram as torres gêmeas, fiz um curta sobre o tema junto aos maiores diretores do mundo. Assim como “Babel”, o filme começa em uma tela escura, só sentido através do áudio, de diferentes reações de vozes do rádio e da TV. E terminava com uma frase que dizia “Deus nos guia ou nos cega”. Me parece que as torres gêmeas são uma metáfora da Torre de Babel, pessoas do mundo inteiro, tentando tocar o céu através do comércio e ela é derrubada. Ironicamente, com a quantidade de tecnologia disponível, ninguém mais se escuta e essa para mim é a babel contemporânea. Os EUA não querem escutar a razão do mundo muçulmano e o reprime.
Pergunta - Por que insiste nesta crítica?
Iñárritu - Há uma xenofobia, uma guerra santa na fronteira do meu país com os Estados Unidos. Mas eu vou além disso. Para mim, “Babel” é um filme sobre a política do humano, do íntimo. O que acontece entre as nações também ocorre entre pai e filho, marido e mulher.
Pergunta - Se “Babel” fecha uma trilogia, o que esperar de seus próximos filmes?
Iñárritu - Trabalho em um projeto complicado, que vai levar uns dois anos. Mas é impossível anunciá-lo agora pois o cinema é como uma pessoa, vai mudando com o tempo. Quem sabe desenvolvo até um senso de humor.