08 de julho de 2026
Internacional

Filme brasileiro é aplaudido em Berlim

Por Silvana Arantes | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

O filme brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, de Cao Hamburger, seduziu ontem o Festival de Berlim. Terminou sob aplausos a primeira exibição do longa no festival, às 9h (6h, no horário de Brasília), para a imprensa e para o júri da competição. O segundo filme apresentado ontem na disputa pelo Urso de Ouro, “O Segredo de Berlim”, de Steven Soderbergh, teve acolhida bem diferente - os poucos aplausos ouvidos na sessão de imprensa foram rebatidos por vaias.

“O Segredo de Berlim” é estrelado por George Clooney, um correspondente de guerra, Tobey Maguire, um oficial americano, e Cate Blanchett, a mulher disputada por ambos, na devastada Berlim de 1945. É filmado em preto-e-branco, dirigido em estilo noir e tem cenas abertamente decalcadas de “Casablanca”, como o final numa pista chuvosa de aeroporto.

Hamburger comprovou a aprovação de seu filme quando chegou à sala de entrevistas coletivas e foi recebido por calorosas palmas dos jornalistas. Acompanhado dos atores Michel Joelsas (o garoto Mauro), Germano Hauit (Shlomo) e do produtor Fabiano Gullane, o diretor ouviu perguntas relacionadas sobretudo ao papel do futebol na vida brasileira, à hipótese de a Copa de 70 ter sido usada pela ditadura em seu favor e ao retrato que faz da comunidade judaica brasileira nas cenas de seu longa.

O diretor afirmou que “a Copa de 70 foi uma arma para o governo esconder o que estava acontecendo, sim”, mas ressalvou que “isso não foi um privilégio desse governo e dessa ditadura”. Hamburger afirmou discordar da idéia de que “o futebol é o ópio do povo”, porque acredita que “no Brasil, o futebol tem uma força maior do que o governo e os regimes”. Depois de lembrar que a ditadura militar iniciada em 64 não foi a única que o Brasil conheceu, o diretor disse que “é bom lembrar as coisas que não foram boas, para não repeti-las”.

Trilogia latina

Ao repórter estrangeiro que mencionou a coincidência temática de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” com o chileno “Machuca”, de Andrés Wood, Hamburger, 44 anos, disse que seu filme forma “uma trilogia involuntária” com o de Wood e “Kamchatka”, do argentino Marcelo Piñeyro, por tratarem os três da ditadura pela perspectiva de uma criança. “Minha geração viveu a ditadura militar quando era criança. É natural que a abordássemos dessa forma”, afirmou.

Joelsas teve de responder, se, assim como seu personagem, é um fanático por futebol. “Gosto bastante de futebol, mas não sou muito bom. Não (o suficiente) para ir para um time”, disse, sob o olhar atento de sua mãe, na platéia.

O futebol foi o mote também da última pergunta, feita pelo moderador da entrevista, o italiano Vicenzo Bugno, que já havia mencionado no início suas dolorosas lembranças da final da Copa de 70, que a Itália perdeu para o Brasil. Bugno quis saber se Hamburger ainda se lembrava da escalação da Seleção canarinho. “Eu e quase todo mundo”, disse o diretor, emendando com a citação dos 11 titulares do Brasil, de Félix a Rivellino.

Em suma, a estréia de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” no Festival de Berlim foi um belo gol.