Agudos – Hoje, dia 11 de fevereiro, a advogada Luzia Ferreira dos Santos, moradora da cidade de Agudos, vai apagar 85 velinhas. Lúcida e ainda em atividade, ela é sinônimo de mulher ousada. Na década de 60, em plena ditadura, ela abandonou a ‘segura’ profissão de professora primária e voltou aos bancos escolares para realizar um sonho: ser advogada. Sem cota especial, mulher e negra, Luzia não se intimidou diante das dificuldades. Enfrentou o vestibular e em 1966 pegou o canudo pela turma batizada de Daniel Pacífico.
No início da carreira fez jornada dupla, como professora e advogada. Hoje ela atua somente como profissional da Lei, numa área pouco cobiçada, o crime. Na cidade de Agudos e por onde passou, a doutora Luzia deixa marcas, costuma ajudar as famílias carentes, as mulheres sofridas e todos aqueles que lhe procuram.
Mas, se o ‘sujeito’ quiser conhecer um pouco mais da ousadia dessa mulher, tente enganá-la. “Eu me lembro que certa vez eu defendi um homem que tinha esfaqueado outro e estava preso. Combinamos um preço e ele não ficou nem um dia todo na cadeia“, lembra.
Livre, o tal agressor, passou a ignorar os recados da advogada. “Depois que o caso foi resolvido, ele não me pagava. Como ele morava na zona rural, eu mandava bilhetes pelo motorista do ônibus. Ele nunca respondia”, conta.
Certo dia, a advogada recebeu uma carta bem escrita. “Eu deduzi que não era ele que tinha escrito, porque ele mal sabia assinar o nome. Era simples e tinha mais de sete filhos. A única coisa que ele tinha era uma propriedade rural”, recorda a advogada.
Irritada com a situação, a advogada entrou na Justiça e mostrou para o sitiante que ele tinha uma dívida a saudar. “Ele ia perder o sítio para mim. Fiz isso para mostrar a ele que ele tinha que ser honesto. Quando ele percebeu que ia perder a propriedade, veio me pagar e encerramos o caso”, comenta.
Casos interessantes, doutora Luzia tem muitos a serem contados. “No início da carreira trabalhava na área de família. Hoje, só trabalho no crime. Atualmente estou fazendo a defesa de um rapaz acusado de tráfico”, diz.
Vivendo no Brasil numa época difícil, a advogada diz que não se recorda dos momentos em que sofreu preconceito. “Não enfrentei situações difíceis com a ditadura e muito menos por ser mulher e negra”, garante.
Disposta a lutar pelos direitos, doutora Luzia, como é carinhosamente chamada, diz que respeita as cotas para os negros nas universidades, mas não concorda. “No meu tempo não tinha nada disso. Eu paguei meus estudos e concorri com todos os outros candidatos de igual para igual. Estudei muito para conseguir alcançar o meu sonho”, argumenta.
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Currículo
Professora - formada pela Sociedade Civil de Educação Irmãos Guedes de Azevedo, de Bauru.
Contadora - formada na Escola Comércio Irmãos Guedes de Azevedo, de Bauru.
Bacharel - Formada em Estudos Sociais pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Adamantina (SP)
Sócia fundadora do Instituto dos Advogados de Campinas.
Sócia honorária do Clube do Livro de Campinas
Vereadora, por duas vezes, na Alta Paulista pelo MDB.
Presidente de partido político por vários anos.
Presidente dos Comissários de Menores.
Fundadora da Polícia Militar Mirim de Flórida Paulista.
Construiu o Grupo Escolar no patrimônio de Domélia/Agudos, 1960.