08 de julho de 2026
Saúde

Xixi na cama

Por Constança Tatsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Cerca de 15% das crianças com 5 anos ainda fazem xixi na cama. Ao contrário do que muitos pensam, na maioria dos casos, não se trata de manha para chamar a atenção nem de preguiça. É uma doença que tem muitas causas - a enurese. Para tratá-la, em vez de remédios, médicos têm indicado técnicas de motivação - 60% dos casos podem, de acordo com especialistas, ser resolvidos com esse método.

Na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), por exemplo, indica-se como primeiro passo para o tratamento da criança uma alteração na alimentação. São retirados do cardápio alimentos que irritam a bexiga e/ou causam prisão de ventre. Exemplos: chocolate, laranja, café e refrigerante de cola. A ingestão de líquidos também é controlada. Os pais devem estimular a criança a beber mais no decorrer do dia e cortar o consumo quatro horas antes dela dormir.

O segundo passo recomendado é o “treinamento do assoalho pélvico’’, ou seja, a criança recebe orientações sobre a musculatura e os órgãos envolvidos no processo urinário. São feitos exercícios, uma uroterapia, para que ela consiga ter maior controle sobre o desejo miccional.

Um exercício indicado é beber bastante água de uma vez para ensinar o cérebro a lidar com a sensação de bexiga cheia. Paralelamente, a criança é constantemente motivada a parar de fazer xixi na cama. Ela preenche um diário onde aponta (com carinhas alegres ou tristes/ chuva ou sol) os dias em que acordou seca. À medida que as etapas são vencidas, lembrancinhas são dadas para restaurar a sua auto-estima.

“A proposta da reabilitação é aumentar a capacidade miccional da criança para que ela passe a noite sem fazer xixi’’, explica a enfermeira Maria José Felizardo, que participa do processo na Unifesp. “As técnicas de motivação em enurese podem resolver o problema em 50% a 60% dos casos’’, diz Antônio Macedo, professor e chefe do setor de urologia pediátrica da Unifesp.

A enurese pode ser primária, quando a criança nunca conseguiu ter o controle do xixi durante a noite, ou secundária, que ocorre quando ela consegue ficar seca por um tempo, mas volta a molhar a cama. Essa segunda hipótese geralmente tem fundo psicológico e está relacionada a algum trauma emocional, como separação dos pais, nascimento de um irmão ou, até mesmo, um assalto.

A maior parte dos casos de enurese noturna tem origem genética. O mais comum é a deficiência no hormônio antidiurético: a substância responsável por diminuir em até 80% a produção de urina durante a noite. É só assim que as pessoas passam oito horas dormindo sem precisar ir ao banheiro.

De acordo com Nuncio Vicente de Chiara, responsável pelo Ambulatório de Enurese da Santa Casa, em São Paulo há até 1 milhão de enuréticos. Ele explica que o tratamento com remédios é feito de duas formas: a primeira com um substituto do hormônio antidiurético, a desmopressina, mas é uma opção cara e não é acessível pela rede pública. A segunda usa um antidepressivo, a imipramina, que deixa o sono mais leve e aumenta o tônus do esfíncter. O problema aí são os efeitos colaterais.

____________________

Compreensão da família

Os especialistas garantem que grande parte das crianças que têm enurese já foi vítima de agressões ou castigos, mas os médicos alertam que a culpa não é delas. Na verdade, os pacientes são as maiores vítimas e a compreensão da família é fundamental. “Não pode brigar, nem castigar. A criança precisa ser tratada’’, diz a enfermeira Maria José Felizardo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O momento de procurar um especialista depende da repercussão da doença na vida do doente e da família - que também sofre com a cama suja e noites maldormidas. “A enurese passa a ser um problema quando a criança se conscientiza e limita suas atividades sociais, como dormir na casa de amigos, parentes ou em um acampamento. Isso interfere na auto-estima’’, diz Abram Topczewski, neurologista do Hospital Albert Einstein e autor do livro “Xixi na Cama Nunca Mais’’ (editora Inteligente).

“A questão é emocionalmente traumática para as crianças e interfere na dinâmica da família. O assunto deve ser olhado com carinho’’, afirma. A situação, se prolongada, pode afetar a personalidade. “Toda criança que tem enurese é tímida e tem problema de auto-estima. Isso não é a causa da doença. Ela é assim por causa da enurese’’, explica Nuncio Vicente de Chiara, da Santa Casa.