09 de julho de 2026
Cultura

‘O Arnesto nos convidou...’

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 3 min

“Senhores, ao confessionário!”. A frase-convocação do músico Simbad provoca risos nos jornalistas presentes e dita o clima descontraído da entrevista coletiva concedida à imprensa na tarde de ontem pelos “professores do samba”, os Demônios da Garoa. No final da conversa, os dedos dos seis músicos, que passeavam timidamente pelos instrumentos durante todo o tempo, se rendem ao samba para anunciar um pouco do que o público verá no show – com ingressos já esgotados - nesta noite no restaurante Beef Street Music, do Alameda Quality Center.

Sucessos eternos, os clássicos de Adoniran Barbosa “Saudosa Maloca”, “O Samba do Arnesto”, ambos de 1955, e “Trem das Onze”, lançado dez anos depois, dividirão o repertório com músicas mais recentes, como “Corrupção”, composta em parceria pelo integrante mais recente, Dedé Paraíso - há um ano e meio no grupo - e o mais antigo, Canhoto. “Entrei depois do dilúvio”, diz em referência aos seus 44 anos “endiabrados”.

A letra de “Corrupção” é um protesto bem-humorado aos últimos episódios da política brasileira: “Há quem foge com a grana, escondida na cueca/São reais, são verdadeiros, genuínos brasileiros”. Esta sacada de fazer humor de situações reais, aliada a introduções originais, é o que dá o sabor especial ao tempero do samba paulista cantado com um “sotaque italiano”, como bem lembra Sérgio Rosa, filho do fundador do time, Arnaldo Rosa, e pai de Ricardinho, que se juntou ao grupo há quatro anos.

A autenticidade do grupo completa 63 anos de pandeiro, idade que rendeu um registro no Guinness Book - Livro dos Recordes Brasileiro, em 1994, como o “Conjunto Vocal Mais Antigo do Brasil em Atividade”. “Mantemos as características originais do grupo, não a formação que seria humanamente impossível”, coloca Sérgio.

Mas, mesmo com anos sobre os palcos, até hoje os músicos são tomados pela ansiedade antes do show. “A primeira música é o termômetro da reação do público”, afirma Sérgio. A atenção com o público está também no jogo de luzes que focam a platéia e não apenas os músicos. Afinal, “tem que paquerar alguém para se inspirar”, solta Canhoto, complementado por Sérgio: “A luz no artista só é boa quando o público vai embora no meio do show. Assim, a gente não vê nada”, brinca.

• Serviço

Show do Demônios da Garoa hoje, a partir das 21h, no Beef Street Music, do Alameda Quality Center (rua Luis Levorato 1-55, quilômetro 335 da Rodovia Marechal Rondon). Os ingressos estão esgotados. Mais informações: (14) 3321-5005.

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A parceria

Adoniran Barbosa foi obrigado a se render. Aquele bando de adolescentes que ficava nos corredores da Rádio Nacional “estragando” suas músicas conquistou o gosto do povo e do próprio compositor, rendido à ousadia dos garotos. “Nós não queríamos mais imitar os outros”, diz Sérgio.

E foi com o estilo gaiato, incorporado aos poucos por Adoniran, que o grupo registrou o primeiro sucesso. “O Adoniran havia gravado ‘Saudosa Maloca’ em 1949, mas a música só emplacou quando nós gravamos, em 1954”, recorda o músico.

A popularização dos garotos entusiasmou o compositor. E em 1946, iniciava o casamento de 29 anos entre Adoniran e o Demônios da Garoa, terminado em 1980, dois anos antes da morte do compositor. A parceria rendeu 42 discos com sambas de Adoniran, número que deve aumentar neste ano.

“Estamos preparando um show especial em homenagem aos 25 anos da morte do Adoniran”, anuncia Sérgio. A apresentação, que ainda não tem data nem local definidos, deve ser transformada em DVD.

E mesmo com a morte de um de seus maiores compositores e a distância da mídia, o Demônios da Garoa continua incendiando todos os lugares onde se apresenta. Apenas em 2006, foram mais de 140 shows em todo o Brasil. Na Capital, o grupo é presença confirmada toda quinta-feira no Bar Brahma. “Hoje o artista tem que pagar para mostrar o seu trabalho, mas ainda bem que nós não precisamos da força da mídia para vender nossos shows”, desabafa Sérgio.