08 de julho de 2026
Articulistas

Cuidando da sobrevivência


| Tempo de leitura: 2 min

Na ânsia de ajudar a muitos, poucos gestores lembram que as entidades do 3º Setor precisam sobreviver financeiramente para continuar seu trabalho, e deixam de lado a profissionalização e a gestão adequada. Com isso, projetos belíssimos simplesmente não são realizados ou são paralisados, prejudicando milhares de pessoas. Para ter idéia do dano que essa postura representa, calcula-se que em 2005 mais de 220 mil pessoas foram atendidas só na cidade de São Paulo. Apesar de movimentarem um crescente volume de recursos, boa parte das 300 mil entidades brasileiras do 3º Setor alcançam a auto-suficiência financeira. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas, envolvendo cerca de 4,5 mil organizações, mostrou que apenas 41% sobrevivem com recursos públicos e 38% dos seus colaboradores são funcionários, prestadores de serviço, comissionados e estagiários, ou seja, profissionais aptos a executar suas tarefas mas que devem ser remunerados pelos serviços prestados. Esses números sinalizam que as entidades necessitam de receita, no mínimo para pagar seus funcionários - e esse é só um dos seus gastos fixos. Portanto, identificar fontes de receita não é o único ponto a se pensar. Outros são: como não gastar mais do que se arrecada, como usufruir os benefícios fiscais concedidos às filantrópicas e como ampliar a captação financeira para multiplicar sua ação. Um dos primeiros passos para o sucesso dessas entidades é absorver alguns conceitos do segundo setor, o empresarial. Por exemplo, elaborar um plano de atuação que defina a causa a ser atendida, a origem das receitas, o total de gastos, os voluntários que atrairá, os funcionários a contratar, etc.

Focado nesses parâmetros, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), entidade filantrópica, tem crescido sustentadamente ao longo dos seus 42 anos de existência e ampliado cada vez mais os serviços que presta gratuitamente aos jovens. Até agora, encaminhou mais de seis milhões de estudantes para programas de estágio e capacitou quase um milhão de alunos do ensino médio e superior em seus programas de desenvolvimento estudantil. Aliás, a tônica do trabalho do CIEE é capacitação para o mercado de trabalho e isso vale também para o 3º Setor, pois é uma das palavras-chave para o sucesso de qualquer projeto. É a capacitação dos funcionários que promoverá a profissionalização de muitas entidades - o que não quer dizer que elas passarão a visar ao lucro. Na verdade, ao buscarem receita, estarão assegurando sua autonomia, sobrevivência e ampliação de raio de ação, potencializando os benefícios que geram. Por acreditar nessa premissa, o CIEE promove regularmente palestras e seminários voltados ao fortalecimento das entidades, para que o 3º Setor possa continuar contribuindo para as transformações de que o país tanto carece.

O autor, Luiz Gonzaga Bertelli, é presidente executivo do CIEE, da Academia Paulista de História - APH e diretor da Fiesp