08 de julho de 2026
Nacional

Protesto marca missa de João Hélio

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Rio - A mãe de Gabriela dá as mãos à mãe de Priscila, que abraça os pais de Luciana e todos eles agora juntos confortam os pais de João Hélio Fernandes Vieites. Foi uma corrente solidária de familiares de “mártires da violência”, na definição do padre que comandou ontem missa para mais de 1.000 pessoas na igreja da Candelária, no centro do Rio, em memória do menino de 6 anos arrastado e morto após um assalto na quarta-feira passada.

Lado a lado estavam os pais de Gabriela Prado - morta por bala perdida ao sair do metrô -, Priscila Belford - seqüestrada e morta -, Luciana Novaes - paraplégica depois de ser baleada na universidade em que estudava - e Rosa Cristina Fernandes e Elson Lopes Vieites - pais do pequeno João, arrastado por sete quilômetros preso por um cinto de segurança no roubo do carro da mãe.

O casal chegou, com a filha Aline, 14 anos, à Candelária às 11h, horário marcado para o início da missa em homenagem ao garoto e em protesto à violência, que reuniu além de parentes de vítimas, centenas de pessoas revoltadas com o crime. Vestiam camisas com fotos de vítimas e traziam cartazes que pediam Justiça e Paz. No meio da confusão provocada por jornalistas durante o percurso da família até o altar, alguns correram para abraçá-los e beijá-los. Ouviam-se gritos: “Que Deus dê forças”, “Vocês têm um anjo”, “Vocês não estão sozinhos”.

Houve choro generalizado. A missa foi rezada pelo padre Nixon Bezerra, pároco de Acari, favela violenta na zona norte do Rio. “Vejo tantos novos mártires da violência numa cidade que não sabe ainda respeitar o dom da vida”, disse.

Uma passeata foi organizada logo depois da missa. A maioria dos 600 manifestantes era de mulheres. Um trecho da passeata, que percorreu a avenida Rio Branco até a Câmara Municipal e depois seguiu para a Assembléia Legislativa, chegou a ter 1.000 pessoas. Uma chuva de papel branco picado caiu de cinco edifícios da avenida. A passeata não contava com carro de som, bandeiras de partidos políticos e músicas ensaiadas. Muitos foram os gritos de ordem que incentivavam pedestres a aderir ao ato. “O povo, calado, é assassinado”, “O Rio assaltado, você aí parado”, “Mataram o meu, amanhã será o seu”, “Socorro”, “O povo unido jamais será vencido”, “Não foi em vão, a marcha do João”.

Integrantes da banda Detonautas também fizeram parte da passeata. Em junho, Rodrigo Netto, 29 anos, guitarrista da banda, foi morto após uma tentativa de assalto. Irritados, os integrantes do ato partiram para a Assembléia. Ali, nova confusão, quando as portas da Alerj foram fechadas. Depois de quase uma hora, um grupo de 15 pessoas foi recebido por deputados, para cobrar medidas contra a violência. Ficou decidido que parentes de vítimas participarão de reuniões da Comissão de Direitos Humanos da casa.

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), esteve na missa durante aproximadamente 15 minutos. Ele disse aos jornalistas que levaria uma carta assinada pelas vítimas da violência do Rio ao presidente Lula, ainda ontem, e defendeu mais uma vez que os Estados tenham autonomia para legislar. “Cada Estado deveria discutir isso (a autonomia), porque cada Estado tem sua realidade não só na área penal, mas em outras questões também. Chega de achar que Brasília vai resolver todas as questões. Não vai.”