08 de julho de 2026
Nacional

Dor pode levar à ataque de fúria

Por Constança Tatsch | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Há duas semanas, a reação do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PFL), contra um manifestante surpreendeu muitos paulistanos. Mas especialistas garantem que um ataque de fúria como aquele pode acontecer com qualquer um. Tudo vai depender das circunstâncias. Em algumas situações a sociedade até espera uma reação muito forte, quase animal, como quando uma mãe defende a vida de um filho. A estranheza surge quando a resposta da pessoa parece muito maior do que o necessário.

“Existem situações em que qualquer pessoa vai virar um leão. Existem outras em que só vira quem tem propensão à impulsividade. É o famoso estopim curto’’, afirma Marco Antonio Alves Brasil, ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria.

Isso significa que quem tem um surto assim é, necessariamente, esquentadinho? Não. “Por trás de uma reação dessas, pode haver muitos motivos, desde biológicos a situações emocionais. Algumas pessoas têm um controle incrível. Tem outras que não conseguem, vai de personalidade’’, aponta Brasil.

Os fatores biológicos são, por exemplo, a privação de sono - uma noite mal dormida deixa muita gente especialmente irritada -, dor crônica ou aguda - que acaba com qualquer tolerância - e, até mesmo, a falta de alimento. Os aspectos emocionais podem ser uma preocupação excessiva, situação de estresse, necessidade de preservar sua autoridade, sensação de estar ameaçado, entre outros.

O que também pode acontecer é a somatória de vários fatores, a famosa gota d’água. Por exemplo, um homem está com o pai muito doente, brigou com a mulher e foi despedido. Se alguém encostar no carro dele no trânsito, corre risco de ser vítima da explosão emocional alheia. “De forma alguma isso representa uma patologia. Há tendência hoje de medicalizar e psiquiatrizar todo tipo de reação humana’’, diz o psiquiatra.

Essas reações de descontrole emocional acontecem porque o cérebro e, consequentemente, todo o corpo, ainda são muito influenciados por instintos, explica o neurologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rodrigo Rizek Schultz, especialista em emoções.

Esses instintos são áreas primitivas do cérebro que, na maior parte do tempo, ficam sob controle de regiões mais novas, que surgiram com a evolução da espécie humana e são responsáveis pela crítica e pelo julgamento, por exemplo.

Quando o estímulo de raiva chega, aciona todo o cérebro de maneira muito rápida e complexa. A informação é transmitida por neurotransmissores como a adrenalina e a dopamina. Passa por diversas regiões como a amígdala e o tronco cerebral. Dali são deflagradas respostas autonômicas, que deixam o corpo pronto para reagir: os braços se armam e a postura corporal muda, há taquicardia, vasodilatação, aumento da pressão, sudorese e até os pêlos eriçam. Ao mesmo tempo, a informação chega ao lobo frontal.

“O lobo frontal julga se aquilo que você quer fazer é correto ou não, e quais as conseqüências disso. É ele que pesa, ele é o juízo’’, afirma o neurologista do Hospital Sírio Libanês Eduardo Mutarelli.

Geralmente, o lobo frontal avalia a situação e dá início a um grande processo de inibição. O sujeito conta até dez e começa a acalmar. “Mas, às vezes, a pessoa está tão pressionada que não vai pesar, vai agir. O lobo frontal não tem tempo suficiente e o camarada age com instinto animal’’, afirma Mutarelli.

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Guardar x extravasar

Todo mundo já ouviu aquele amigo explosivo dizer que, graças ao seu temperamento, não sofre com gastrite. Mas, de acordo com o neurologista Rodrigo Rizek Schultz, novos estudos apontam o contrário: pessoas mais agressivas, que reagem, falam de qualquer jeito, têm mais problemas de saúde.

Para quem já sofreu as conseqüências ruins de um descontrole emocional e quer evitar uma repetição, o médico aconselha exercícios que treinam a pessoa a reagir melhor e ter maior autocontrole, como tai-chi-chuan ou ioga.

É melhor estar preparado para os dissabores e o ímpeto de reagir de forma mais intensa sempre aparece, mas costuma ficar só nisso. “A sociedade e as circunstâncias te testam o tempo todo. E o lobo frontal sempre diz: fica quieto, não faz isso, não é hora. Mas às vezes você não consegue’’, completa. O resultado quase todo mundo já sentiu na pele: uma resposta descontrolada, uma ressaca moral e, por fim, um pedido de desculpas.