09 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: O javali e a raposa

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

A raposa encontrou o javali afiando seus dentes em um grande tronco de carvalho. Com seu sorriso tipicamente cínico, a raposa perguntou: “Por que você está afiando seus dentes? Não estou vendo nenhum inimigo à sua frente.” “Justamente por isso”, respondeu sabiamente o javali, “Quando algum inimigo chegar, já não terei mais tempo para afiá-los!”

Ao contrário do que os defensores do chamado “pensamento positivo” pregaram no final do século 20 e ainda pregam no início do século 21, na Antigüidade, o filósofo Sêneca recomendava a seus discípulos uma no mínimo estranha meditação, a qual ele denominava “praemeditatio malorum”. Este exercício mental consistia em, através do pensamento, considerar possíveis de nos ocorrer não apenas os males mais freqüentes e os que comumente ocorrem aos indivíduos, mas tudo o que é possível acontecer de ruim.

Esta espécie meditação “maluca” se constituía na aceitação de que os males que nos ocorrerão, mesmo os piores males, acontecerão de qualquer modo. Não era simplesmente imaginar que seriam possíveis acontecimentos ruins, mas eliminar qualquer possibilidade de fuga, de incerteza em relação à sua realização. Uma tragédia irá acontecer e isto é um fato. Este exercício de pensamento possuía como objetivo não o desejo de que algo de terrível acontecesse, não era um pensamento para a construção de um porvir, mas antes uma obstrução do porvir.

Enquanto os defensores do pensamento positivo acreditam que devemos rechear nossa mente de coisas positivas para que estas se concretizem, Sêneca aconselhava a meditação sobre coisas horríveis para que as evitemos ou, pelo menos, para que estejamos com “os dentes afiados” caso elas aconteçam. Afinal é fato que elas podem acontecer a qualquer momento, pois a vida não é tão lógica como muitas vezes desejamos. A meditação sobre situações ruins é, na realidade, uma anulação do porvir no interior mesmo desta desconfiança, anulação do porvir mediante a “presentificação” de todo o possível em uma espécie de exercício atual do pensamento.

Se presentificamos assim o terrível porvir não é para torná-lo mais real. Ao contrário, é para torná-lo tão pouco real quanto possível, ou pelo menos para anular a realidade daquilo que, no porvir, poderia ser percebido ou considerado como um mal. Sêneca escreve: “Se temes algum acontecimento, tem em mente que ele com certeza se produzirá.” Em outras palavras, se temos receio de que algo de desagradável aconteça devemos nos posicionar mentalmente nesta situação, como se ela estivesse acontecendo agora. A partir daí analisar nossos sentimentos, reações e a constelação de fatos que se formariam caso esta temível situação fosse real.

E o filósofo continua: “Qualquer que seja o mal, avalia-o em teu pensamento, faz balanço de teus temores acerca dele: certamente compreenderás que o que te dá medo é sem importância e sem duração”. Justamente, esta meditação não é para que os acontecimentos realmente se produzam, mas para que nos questionemos: “o que acontecerá depois deste mal, depois deste acontecimento ruim?” Muitas vezes, diante das situações desagradáveis, a nossa dor é demasiadamente violenta, pois o indesejável, apesar de ter sido sempre possível, nunca é esperado e nos pega de surpresa.

Obstruir o porvir pela simulação mental de sua atualidade, reduzir a realidade pelo despojamento do imaginário é abrir-se realmente para a totalidade da vida. Sem dúvida alguma, nunca estamos suficientemente preparados para as situações. A vida não consiste em um eterno aprendizado para viver, mas viver realmente tornando este viver um aprendizado. Em outras palavras, nós realmente aprendemos as lições da vida passando verdadeiramente por elas. Porém, como animais racionais temos a vantagem de estarmos relativamente preparados para as situações que nos acometem, para que delas possamos retirar o melhor possível.

O imprudente é aquele que, apesar de poder ter consciência de que tudo, mas tudo mesmo, pode lhe acontecer, deseja conscientemente não tomar consciência deste fato. Ter pensamentos bons e desejos agradáveis para o nosso futuro é algo saudável. Mas tornar estes desejos e pensamentos uma regra absoluta fechando os olhos da mente para as situações ruins é pura ingenuidade. Afinal, a vida nem sempre está sob o nosso controle, por mais que tenhamos a ilusão de que ela esteja.

Por isso é muito positivo e necessário pensar também nas possíveis situações não desejáveis. Somente assim poderemos viver na totalidade da vida e usufruir todas as situações, mesmo que muitas delas sejam para nós indesejáveis. Para Nietzsche, o ser humano é como uma árvore. Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo, para aquilo que pensamos ser o mal.