10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: ‘Beleza nem sempre significa saúde’

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 10 min

Sua vida é cuidar da beleza. Dela e dos outros. Considerada atualmente uma das maiores especialistas de Bauru e região na área da medicina estética, Daniela Hueb fala com naturalidade e propriedade sobre o assunto, que domina como poucos do setor.

Entre outros pontos de vista, ela defende bom senso para profissionais e pacientes na hora do tratamento, que deve priorizar os limites corpóreos. “O médico não se pode ser dinheirista e o paciente não pode querer um corpo bonito a qualquer custo, pois beleza nem sempre significa saúde.”

Colaboradora semanal do Jornal da Cidade, em que assina a coluna “Toques e Retoques”, Hueb conta vários detalhes de sua atuação profissional e de sua vida fora do consultório. Também esclarece sobre a nutrologia, um ramo relativamente novo da medicina responsável pelo tratamento de distúrbios alimentares cada vez mais comuns nos noticiários, como bulimia e anorexia.

Além disso, Hueb fornece dicas importantes para cuidados com a saúde, como a necessidade de massificar o uso do protetor solar, e conta casos curiosos e engraçados surgidos no relacionamento diário com seus pacientes. A seguir, os principais trechos da entrevista.

JC - Você nasceu e estudou fora. Como veio parar em Bauru?

Hueb - Fiz faculdade em Alfenas (MG), onde me formei, e vim para Piratininga para ser médica-chefe do Pronto-Socorro. Primeiro comecei, em 1999, dando plantão no final de semana em Macatuba, porque meu pai era provedor do hospital, e fazia clínica médica na Santa Casa de Ribeirão Preto. Daí fiz dermatologia, no Rio de Janeiro e vinha direto para cá, porque sempre gostei daqui, mas ficava mais em Piratininga porque era médica-chefe lá dos plantonistas.

Aí tive uma “briguinha” com meu pai, saí e fiquei só em Piratininga. Terminei a residência e a dermatologia e aí fiz nutrologia na USP. Quando estava em Piratininga, tinha uma clínica pequena, muito simples, que começou a ter um movimento bom. Mas notei que 90% dos clientes eram bauruenses e achei que, por isso, deveria vir para Bauru. Assim, vim para cá em 2003 e, felizmente, começou a dar certo.

JC - Como é a Daniela Hueb fora do trabalho? O que gosta de fazer em casa?

Hueb - Adoro comer, mas detesto cozinhar. Faço esteira em casa na hora em que dá, pelo menos três vezes por semana. Além disso, estudo bastante, costumo participar de congressos e, de madrugada, escrevo a coluna para o JC. Já aos domingos, religiosamente, vou para a casa dos meus pais em Macatuba, que é o meu refúgio com a família.

JC - Você tem tempo para descansar, relaxar...

Hueb - Tenho, mas eu tento sempre acordar mais ou menos no mesmo horário porque depois o organismo sente muito se fica mudando muito. É por isso que segunda-feira todo mundo está morto: domingo acorda meio-dia e segunda-feira, até o relógio biológico se adaptar é complicado.

JC - Uma de suas características pessoais é que sempre está procurando se especializar, ir a congressos, viajar bastante. Qual é a importância disso para você?

Hueb - Acho que a gente tem sempre de estar na ponta. Me sentiria muito mal se um paciente me perguntasse sobre um tratamento novo que ele viu em uma revista e eu não soubesse explicar ou não soubesse fazer. Acho que tudo que lançam, tenho que buscar o mais rápido possível. Os melhores tratamentos são lançados fora, nos Estados Unidos e, por isso, até chegar no Brasil, demora muito.

JC - E esses tratamentos ligados à estética mudam rapidamente?

Hueb - Em uma velocidade violenta. Por exemplo, agora, nos Estados Unidos, eu vi um filtro solar para tomar. Já em termos de equipamento, fiz uma reforma na clínica e tive de trocar quase tudo. Você tem de fazer todo esse investimento superalto porque os equipamentos utilizados há um ano já estavam obsoletos.

JC - Você é especialista em nutrologia. O que esse ramo médico trata?

Hueb - Nutrologia é uma área médica nova que estuda os distúrbios alimentares. Por isso, muita gente confunde os nutrólogos com os nutricionistas.

JC - São profissionais diferentes então?

Hueb - Sim. Enquanto o nutricionista monta dietas, o nutrólogo pode receitar medicamentos e analisar todos os distúrbios alimentares. Já os endocrinologistas analisam mais hormônios, diabetes e distúrbios de crescimento, coisas mais complexas. Diferente da nutrologia, que é uma área específica para o tratamento de distúrbios alimentares.

JC - Quais distúrbios alimentares, por exemplo?

Hueb - Bulimia, anorexia, obesidade, hipotiroidismo e suas complicações.

JC - Esses distúrbios estão intimamente ligados às questões estéticas e ao cuidado exagerado pela beleza corpórea. Quais são as raízes do surgimento dessas doenças?

Hueb - Acho que a mídia enfatiza muito um padrão de beleza inatingível. Você percebe que as revistas usam e abusam do Photoshop (programa de computador destinado ao tratamento de imagens), porque mulher que não tem celulite, só se for travesti. Não há como evitá-la em razão dos hormônios femininos. E as adolescentes, principalmente, querem ter um corpo perfeito e sem nenhuma celulite. Com isso, está caindo em uma coisa que está todo mundo ficando muito igual, ou seja, com mamas grandes, cabelos lisos, narizes pequenos e lábios gigantescos. Você sai em festas ou danceterias e nota que as adolescentes estão muito parecidas. E, às vezes, a pessoa tem uma característica própria que já a torna bonita.

JC - Qual é o limite da beleza, então, para as pessoas?

Hueb - É a saúde. Se a pessoa está em com um peso bom, com os exames certinhos, faz exames complementares anualmente, mesmo assim a família ainda deve ficar em cima. Às vezes, os pais não percebem, por exemplo, o emagrecimento demasiado de uma criança ou adolescente porque estes colocam muitas roupas para disfarçar. Nesse caso, também é imprescindível o auxílio de psiquiatras, psicólogos e nutricionistas. Além disso, também é necessário que os médicos esteticistas não sejam extremamente dinheiristas e tenham bom senso. É preciso alertar as pessoas. Há quem já tenha um lábio grande e quer aumentá-lo ainda mais. Não faço isso.

JC - O que as pessoas precisam se atentar é que beleza nem sempre significa saúde...

Hueb - Exatamente. A saúde tem de estar acima de tudo. E magreza excessiva, por exemplo, não é saúde. Até as roupas precisariam mudar. Na realidade, todo mundo tem biotipo mais cheinho do que magrinho, mas as vestimentas estão cada vez menores.

JC - Você costuma comentar que, durante os tratamentos de beleza, os homens são mais fáceis de lidar que as mulheres. Qual o motivo disso?

Hueb - É verdade, porque as mulheres são extremamente detalhistas e minuciosas, diferente dos homens. Para eles, tudo está bom e, se melhorar um pouquinho, já acham excelente e não ficam reparando em detalhes como as mulheres. Por isso, os homens são muito mais fáceis, apesar de muitos ainda terem certo preconceito e vergonha de se tratarem. Me lembro até de um caso muito engraçado que ilustra isso.

JC - Conte, obviamente, sem citar nomes...

Hueb - Tem um homem que faz tratamento no rosto que finge ser eletricista da clínica para ninguém desconfiar (rindo). Ele tem vergonha e acha que, cuidando da sua beleza, as outras pessoas vão pensar que ele está se afeminando, raciocínio que não tem fundamento.

JC - Mas os homens estão mais vaidosos? Sua clientela masculina tem aumentado?

Hueb - Muito. Mas, geralmente, as esposas ainda acompanham os maridos quando vêm à clínica para incentivá-los. É muito difícil eles virem sozinhos. E os homens sempre tem aquela coisa de que a mulher não pode gastar, isso acho que é 90%. Então, tem muito de a mulher falar “dá uma disfarçada aí, distrai ele aí enquanto eu vou fazendo o cheque”. E outras pedem para passar o valor pela metade porque senão ele não vai querer fazer o tratamento.

JC - E que tipo de tratamento que eles mais procuram?

Hueb - Depilação a laser de barba eles procuram bastante por causa de foliculite, além da redução da barriga, ruguinhas ao redor dos olhos. Mas sempre eles querem algo mais natural possível para que ninguém perceba, diferente da mulher, que quer que todo mundo comente “nossa, como você está bonita”.

JC - Ou seja, apesar do número de homens que se preocupam com a beleza estar crescendo, o preconceito ainda é muito forte...

Hueb - Bastante. Mas a meninada mais jovem tem a cabeça diferente. A geração nova tem na cabeça de que quer estar bem. Eles vêm sozinhos e, às vezes, até trazem amigos. As meninas de 20 anos já chegam assim com o que elas querem fazer, como não ter a barriga, o pneuzinho. Há adolescentes que consideram ser até chique fazer tratamento estético. Agora, o maior desafio para mim é convencer as pessoas a não tomarem sol e usar filtro solar.

JC - Qual motivo de isso ser um desafio?

Hueb - Porque ninguém aceita. As pessoas não entendem que o sol ocasiona flacidez, manchas, rugas e o câncer de pele.

JC - Você se refere a usar filtro solar sempre que for sair de casa?

Hueb - Sempre, mas é muito difícil as pessoas se conscientizarem disso. Aí, quando um cliente chega com aquelas marcas de sol na pele, tenho vontade de chorar.

JC - Mas quais as razões de tanta resistência?

Hueb - Falam que querem pegar uma corzinha ou que não estão habituadas. Eu até brinco e falo para a pessoa escolher: ou fica com uma pele lisa, viçosa e sem ruga ou fica bronzeada, manchada e enrugada. Não tem outro jeito.

JC - O fato das pessoas acharem que precisarão usar filtro solar só quando forem idosas também conta?

Hueb - Também é por aí. Só que elas terão de gastar para tratar. Mas o câncer de pele em jovens está altíssimo.

JC - Em jovens?

Hueb - Bastante. Por causa da exposição excessiva. Do hábito de ficar torrando na praia ou na piscina. Sem contar o fato daqueles “protetores” caseiros que o pessoal ainda passa, ocasionando queimaduras graves.

JC - Que tipos de “protetores” caseiros? Oriente as pessoas sobre quais não usar...

Hueb - Passar Coca-Cola, manteiga e urucum não pode. Isso gera queimaduras gravíssimas até com cicatrizes. Tem de usar protetor solar mesmo, que é o mais indicado, além de tomar sol naqueles horários antes das 10h e após às 16h. Isso é fundamental.

JC - Se para pessoas jovens já é assim, para os mais idosos então...

Hueb - Tem que usar até camiseta de manga comprida e clara. Pessoa muito clarinha tem de usar. Em pele oleosa, usar gel sempre, porque, às vezes, a pessoa não gosta de ficar muito melequenta.

JC - Você já viu algum marido reclamar da mulher que fez algum tratamento, ficou mais bonita e depois outros homens começaram a cantá-la e elogiá-la?

Hueb - Quase todos os dias, é normal. Tem marido, por exemplo, que começa a jogar chocolate no meio das lingeries para a esposa quebrar a dieta e faz de tudo para boicotar, como arrumar a torta preferida da esposa. Outros falam para ela jantar, argumentando que é chata, não come e não bebe. Tem um caso que achei muito legal de um casal em separação. Ela ficou três meses na casa da mãe para depois terminarem o processo. Mas, nesse período, ela emagreceu 30 quilos, puxou umas mechas no cabelo, contratou um amante profissional para dar umas coordenadas e voltou em um tubinho preto, linda e maravilhosa. Ele só faltou beijar os pés e não queria mais se separar.

____________________

Perfil

Nome completo: Daniela Ávila Hueb

Local de nascimento: Uberaba (MG)

Idade: 32 anos

Cor preferida: Azul

Hobby: Ler e viajar

Livro de cabeceira: “Dieta de South Beach” e livros da minha área. Atualmente estou lendo “A Meta”, de Eliyahu M. Goldratt e Jeff Cox, que é um livro de auto-ajuda.

Time de coração: Corinthians e Noroeste

Para quem daria nota 10: Para minha mãe, meu pai e meu marido, Waldomiro.

Para quem daria nota 0: Para a corrupção e a violência do País.