08 de julho de 2026
Ser

A arte do desprendimento

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Sabe aquela calça que está no guarda-roupa há tanto tempo e que você não lembra mais quando a usou pela última vez? Ela pode ajudar a melhorar sua qualidade de vida. Como? Doando para quem precisa. De acordo com o professor do departamento de psicologia da Universidade do Sagrado Coração (USC) Luiz Carlos de Oliveira, o desprendimento demonstra, acima de tudo, preocupação com o bem-estar dos outros, mas também ajuda no cotidiano de quem doa.

Para ele há dois parâmetros que influenciam no desprendimento das pessoas. O primeiro é religioso, a necessidade de fazer o bem por causa de uma crença religião. O segundo é a vontade de mudar o mundo, ainda que com pequenos gestos.

Por outro lado, o psicólogo também ressalta a atividade de instituições não religiosas, cujos integrantes acreditam na doação como forma de contribuir para melhorar o mundo. “Parte de uma sensibilidade da pessoa com relação à sua própria posição no mundo. Está ligado a uma visão de um mundo melhor, mais fraterno, no sentido de dar sua contribuição”, frisa Oliveira, que é mestre em psicologia clínica comportamental e doutor em educação escolar.

De acordo com ele, esse desprendimento de agir pelo bem de outros pode gerar benefícios na qualidade de vida. “É uma satisfação pessoal e altamente reforçador a pessoa fazer alguma coisa pelo outro e ver o outro feliz”, argumenta. Além disso, a sensação de bem-estar ao realizar um ato de doação contribui para que a pessoa se relacione melhor com as demais.

De um modo geral, segundo Oliveira, a pessoa que consegue se desprender de objetos que não utiliza mais, como roupas e calçados, tem uma visão mais abrangente da realidade, sobretudo pelo fato de entender que o pouco pode se tornar muito, se for feito constantemente. “Essas pessoas vêem a vida, as relações pessoais, de forma diferente, já que não podem fazer muita coisa, fazem pouco, mas se sentem bem com isso e avaliam que estão fazendo sua parte”, destaca.

De berço

A estudante Cristina Bastos Pimentel não tem dó de doar. Ela conta que já chegou a se desfazer de uma jaqueta para entregar a um menino que passava frio em uma das esquinas da cidade. Esse desprendimento, segundo Cristina, não é exclusivo dela, vem de berço. “Minha mãe sempre fez isso, desde que eu e minhas irmãs éramos pequenas. Quando ela comprava roupa para a gente, por exemplo, tínhamos que nos desfazer de igual quantidade de peças usadas. Ela mostrava que, se a gente está comprando, pode muito bem doar para alguém que precisa”, conta.

Cristina absorveu os ensinamentos da mãe e fez do desprendimento parte de sua vida. Para ela, o ato de doar é realmente muito mais do que ser solidário, é uma filosofia de vida que a ajuda a se manter bem consigo mesma e contribuir para melhorar a vida de outras pessoas. “É uma coisa de família mesmo, de não ser apegado a nada”, comenta.

A falta de apego aos bens materiais ajuda até na hora de se desfazer de algo que ganhou de pessoas queridas. “Não sou apegada a coisas materiais. Por exemplo, se ganhei algo dos meus sobrinhos e por algum motivo tiver que me desfazer, me desfaço. Eu guardo mais bilhetes e desenhos que eles fazem do que presentes”, afirmou.

Levando adiante os ensinamentos da mãe, Cristina salienta que todo mês faz uma limpeza no guarda-roupas, e sempre que vai comprar alguma coisa se desfaz de outra. O desprendimento de Cristina remete ao dito popular “da vida nada se leva” e ela leva o assunto a sério. “Não adianta eu ficar guardando as coisas no quarto, porque quando eu morrer alguém vai mexer nessas coisas, alguém vai dar minhas coisas para outra pessoa. Então não adianta eu ficar guardando?”, questiona.

Para ela, além de trazer satisfação pessoal, o fato de ajudar alguém contribui ainda mais para o desprendimento e desapego aos bens materiais. “Sei que não vou salvar o mundo, mas faço aquilo que quero, o que me sinto bem. Faço minha parte”, conclui.

Já a dona de casa Valéria Aparecida de Barros teve sua primeira experiência de desprendimento cumprindo a vontade de sua mãe, que, segundo ela, deixou orientações bem claras sobre o que fazer com seus pertences, quando falecesse: doar à Vila Vicentina.

Valéria cumpriu o desejo da mãe à risca, e não parou. Hoje faz parte de um grupo de pessoas que sempre doam alguma coisa para a entidade, que abriga idosos. “Quando ela faleceu, fiz uma limpeza nas coisas dela e em algumas coisas que não usava mais em casa e doei. Fiz a vontade dela”, disse.

Valéria conta que o gesto a fez se sentir bem consigo mesma, já que, além de cumprir a vontade da mãe, pôde ajudar outras pessoas. “É bom ajudar os outros, saber que você está transformando a vida de alguém”, ressalta.