08 de julho de 2026
Auto Mercado

Seu carro, sua casa

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Você já almoçou dentro do carro? Já tirou um cochilo? Utilizou seu veículo para estudar ou terminar um relatório importante para o trabalho? Carrega seus CDs favoritos no porta-luvas? Costuma retocar a maquiagem, aproveitando o espelho retrovisor? Carrega roupas, bolsas e outros itens de casa dentro do carro? Se você já fez, ou faz, alguma dessas coisas, faz parte de um grupo que utiliza o carro não só como meio de transporte, mas como extensão da casa.

Basta ver as estatísticas para saber o quanto o carro faz parte da vida da população, de modo geral. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2005 o Estado de São Paulo tinha cerca de 40 milhões de habitantes e 13 milhões de veículos, o que representa uma média de um automóvel para cada três habitantes do Estado. Esses números ilustram bem o quanto o carro “invadiu” os lares.

Ao comprar um veículo, ninguém pergunta qual a área útil ou se ele já vem com armários embutidos, pelo menos por enquanto. Apesar disso, muitas são as semelhanças entre casa e carro. Dois dos principais quesitos solicitados nas concessionárias, por exemplo, são segurança e comodidade, as mesmas vedetes do mercado de imóveis. Se em casa a preocupação com a segurança assume a forma de grades e cercas elétricas, motoristas recorrem cada vez mais a alarme e películas escurecedoras (tipo insul-film).

Mas não é apenas em relação à segurança que os conceitos de carro e casa se aproximam. Para a psicóloga paranaense Neuza Corassa, o carro nada mais é do que uma extensão da casa. “As pessoas vão à garagem, entram no carro e continuam agindo como se continuassem em casa. Durante o trajeto, o carro vira uma ilha, um espaço privado no meio do espaço público”, resume Neuza, autora do livro “Seu Carro – Sua Casa Sobre Rodas – Que tipo de motorista você é?” (Editora Juruá).

Durante um ano, a psicóloga, que é fundadora do Centro de Psicologia Especializado em Medos, de Curitiba, fez mais de 300 entrevistas sobre hábitos no trânsito e descobriu que os ambientes de uma casa são reproduzidos entre o pára-brisa e o porta-malas. O carro vira sala de estar quando todos os passageiros conversam, sala de refeições nos momentos de pressa, sala de som, quarto, despensa, escritório e até banheiro, quando o rapaz troca de roupa em frente à academia, a garota se maquia a caminho da festa ou a mãe troca a fralda do bebê.

Segundo a pesquisa, 48,3% dos homens e 36,7% das mulheres usam o carro como quarto, para tirar uma pestana ou namorar. As mulheres ganham no bate-papo (81,7%) e na escolha das músicas (100%) ao volante. Entre os homens, 70% são craques em usar o carro como escritório, caso do consultor de vendas Fernando Mastrangelli. Ele conta que viaja muito por causa do trabalho e o carro, um Fiat Marea 2002, se tornou um companheiro inseparável, pelo menos em quatro dias da semana, período que costuma viajar a serviço.

Para o consultor de vendas, o carro se tornou não só a extensão da casa, mas também o escritório, já que todo material de trabalho permanece no veículo, mesmo quando ele está em casa, nos finais de semana. Por isso mesmo, a família conta com outro veículo, para os passeios e as atividades diárias. Mastrangelli reforça que nos finais de semana não tira o material de trabalho do automóvel, por isso a família usa mais o carro da mulher para sair nos finais de semana.

Segundo ele, dependendo do setor para onde viaja, a maior parte do tempo é passada dentro do carro. “Eu circulo num raio de 280 quilômetros, então, dependendo do local para onde vou, eu passo a maior parte do tempo no carro, porque eu saio de Bauru e vou para Assis, por exemplo, aí encontro um cliente, entro no carro, vou me reunir com outro, e assim até o fim do dia”, afirma, contando que, algumas vezes, só sai do veículo para passar a noite no hotel.

Toda essa convivência com o carro faz o consultor encará-lo como a segunda casa. “Como você viaja, só fica no hotel pouco tempo, então é tudo dentro do veículo”, ressalta. Apesar dessa relação, Mastrangelli afirma que nunca foi fanático, a ponto de causar ciúmes na família. Ainda assim, ele não descuida e faz manutenção constantemente, além de lavá-lo todo final de semana. “Afinal, o carro é nosso ganha-pão”, destaca.

• Serviço

“Seu Carro - Sua Casa Sobre Rodas - Que tipo de motorista você é?”, 2ª Edição - Revista e Atualizada, com 156 páginas. Autora: Neuza Corassa. Editora: Juruá. Preço sugerido: R$ 29,90.