09 de julho de 2026
Cultura

O apocalipse de Mel Gibson

Por Da Redação | Com Agência Estado
| Tempo de leitura: 4 min

“Apocalypto” começa com uma citação do historiador Will Durant: uma civilização só se destrói por razões internas. Tomando-a como verdade, o império maia já estaria à beira do colapso quando chegaram Pizarro, suas naves, seus sacerdotes católicos e suas armas de fogo, botando para quebrar. Por isso, a história contada por Mel Gibson se refere à luta entre tribos e não contra os conquistadores espanhóis. O filme estréia hoje nos cinemas de Bauru.

A idéia de contar a história dos últimos momentos de glória da civilização maia nasceu de bate-papos de Gibson com o roteirista Farhad Safinia, que havia voltado de uma viagem a Yucatán fascinado. Com a ajuda de um arqueólogo especialista nesta civilização, Gibson e Safinia começaram a transformar o fascínio em aventura. O longa, de boa fatura técnica, envolve três momentos distintos.

Na primeira parte, pretende fazer um raio-X das pequenas comunidades indígenas da América pré-colombiana. Uma delas avista um grupo de índios fugindo de uma devastação e, dias depois, eles mesmos são capturados, com suas famílias devastadas, e levados para uma das suntuosas cidades maias para serem vítimas num sacrifício religioso. A parte seguinte é a saga do protagonista Pata de Jaguar - vivido pelo índio Rudy Youngblood. Na invasão, Jaguar escondeu a mulher grávida e o filho em um buraco. Conseguindo escapar da cidade, é perseguido pelos inimigos e chega, ao fim da fuga, à ultima parte do longa, onde Gibson ainda dá um jeito de pôr os navegadores europeus no filme.

A sede por realismo chega a extremos em “Apocalypto”. Logo no início, o espectador acompanha a caça de um javali e sua completa dilaceração pelo grupo, que ainda degusta os testículos do animal. E tem, claro, muito sangue jorrando das veias dos índios. Com duas horas e 20 minutos, o filme é um pouco longo demais - mesmo para quem gosta dele. Mas, como Gibson (ou a equipe que o auxilia) tem domínio da carpintaria cinematográfica, a história flui, as perseguições funcionam, a barbárie parece crível. Esta é uma apreciação técnica, apenas. Portanto, de importância apenas relativa.

O que, suspeito, terá de ser discutido em “Apocalypto” é, mais uma vez, a maneira como Mel Gibson usa as imagens da violência em seus filmes. Já chega a ser uma tradição - de “Coração Valente”, interpretado por ele mesmo, passando por “A Paixão de Cristo” e agora chegando a “Apocalypto”. Gibson é cru, como carne de açougue. Nota-se o gosto com que se detém em detalhes sanguinolentos e, em particular, cenas de torturas e execuções. Quer dizer, a situação atroz na qual o corpo humano se encontra passivo, à mercê dos algozes.

Sempre é possível argumentar que ele se limita a mostrar as coisas “como elas são”. A agonia de Cristo na cruz, mostrada em detalhes, teria valor moral, em especial para ele, que se diz um cristão fundamentalista: mostrar, sem atenuantes, como Jesus sofreu ao morrer por nós. Essa lição pedagógica não teria o mesmo efeito com eufemismos, elipses e disfarces. Essa é a sua argumentação e poderia ser estendida ao retrato da civilização maia na qual, pelo que se sabe, sacrifícios humanos de fato aconteciam.

Essa violência pode, pelo contrário, ser vista como exploração torpe e sensacionalista dos maus instintos humanos. No fundo escuro de cada um de nós moraria um sádico ou um masoquista a ser despertado. E devidamente explorado para fins comerciais, por que não?

Portanto, não se trata de ignorar a violência como uma paixão existente no ser humano. O é que a sua representação (no cinema, na pintura, na literatura) sempre coloca um dilema ético. Como referir-se a ela, sem por isso explorá-la de maneira gratuita? No cinema, isso toma uma dimensão suplementar. Porque uma coisa é descrever uma cena truculenta com palavras. Outra, exibi-la em imagens. Essa é uma discussão que vem acompanhando o cinema ao longo de sua história e não há sinais de que vai terminar por aqui.

Por exemplo, já se reprovou a violência estetizada de diretores tão cult quanto Sam Peckinpah ou, mais recentemente, Quentin Tarantino. A discussão chegou ao Brasil na representação da violência urbana proposta por Fernando Meirelles em “Cidade de Deus”. São discussões antigas, provavelmente intermináveis, porque as razões de um lado e de outro não podem ser demonstradas.

Cada espectador terá de decidir, por conta própria, se tal ou qual cena de violência se justifica no contexto dramático ou se é pura apelação comercial. Na percepção deste crítico, que não deseja ficar no muro, as motivações de Mel Gibson não deixam margem para dúvidas. O caráter violento dos rituais maias poderiam muito bem ser mais sugeridos do que mostrados com tanto gosto pelo diretor. Não são necessários.

E nem são eles que estragam um filme pouco inspirador, inclusive porque não se entende através dele o processo de decadência da cultura maia insinuado na abertura. Apenas o pioram, um pouco mais.