Quem ainda não viu “Os Infiltrados” ganha a partir de hoje mais uma chance de apreciar no cinema o mais comentado policial dos últimos anos. O filme, que volta às telas de Bauru no Cine’N Fun do Alameda Quality Center, concorre a cinco Oscar na cerimônia de domingo e pode, finalmente, dar a tão esperada estatueta de melhor diretor a Martin Scorsese.
Refilmagem de “Conflitos Internos”, feito em Hong Kong em 2002, o filme acompanha Collin Sullivan (Matt Damon), um informante do chefão da Máfia de Boston, Frank Costello (Jack Nicholson), infiltrado na polícia, e Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um policial que se faz passar por gângster para se aproximar de Costello, numa eletrizante caçada recíproca.
Tenso, violento, bem amarrado, o filme coloca criminosos e policiais no mesmo patamar (“quando se está encarando uma arma carregada, que diferença faz o lado em que você está?”, questiona Nicholson no começo da fita) e leva a ambigüidade dos personagens ao extremo, criando, nos últimos 40 minutos, uma situação inesperada para o público que, acostumado à linearidade simplista do gênero policial, fica sem pistas de como o filme vai ser concluído.
Orquestrado no melhor estilo de Scorsese, com trilha sonora pop de primeira, cortes rápidos e movimentos de câmera elaborados, “Os Infiltrados” surpreende pela uniformidade das atuações (considerando-se aí a quantidade de egos envolvidos). DiCaprio tem um dos melhores desempenhos da carreira, assim como Mark Wahlberg (indicado ao Oscar de ator coadjuvante) no papel de policial nervosinho; Damon e Nicholson mantêm a qualidade habitual (cada um a seu jeito), enquanto Martin Sheen e Alec Baldwin se encarregam de segurar seus papéis menores com classe.
Oscar
Depois da badalação da crítica sobre o filme, que injustamente teve o seu sucesso associado à volta de Scorsese ao submundo da máfia (injusto porque o diretor esbanja talento em obras com outros temas, como “Taxi Driver”, “A Última Tentação de Cristo”, “Touro Indomável” e “A Época da Inocência”) a grande questão sobre “Os Infiltrados” é – mais uma vez – a possibilidade do diretor levar o Oscar, que este ano parece mais real do que nunca.
Indicado pela oitava vez ao prêmio (seis vezes por direção e duas por roteiro), Scorsese é o único dos considerados grandes cineastas americanos em atividade a não ter recebido a estatueta e, com “Os Infiltrados”, pode finalmente quebrar a maldição. Como ganhou há poucas semanas o Globo de Ouro e os prêmios do Sindicato dos Diretores da América e do National Board of Review, ele é considerado favorito na categoria.
Não que ele precise do Oscar. Vencedor de duas Palmas de Ouro em Cannes (1976 por “Taxi Driver” e 1986 por “After Hours”) e dois Globos de Ouro (por “Os Infiltrados” e “Gangues de Nova York”, em 2002), além de inúmeros prêmios de associações pelo mundo, o diretor nova-iorquino não vai acrescentar mais fama, liberdade de criação ou muito mais dinheiro à sua vida caso vença no domingo.
Talvez seja mais uma questão de justiça, já que ele perdeu por obras hoje consideradas clássicas em seus gêneros, como “Bons Companheiros” e os citados “Táxi Driver” e “Touro Indomável”. Caso ele não vença, o mundo segue e ele continuará ao lado de nomes como Orson Welles, Charlie Chaplin e Alfred Hitchcock, gênios esquecidos pela Academia. Não é mau negócio.