Desde a quarta-feira retrasada, quando a imprensa noticiou o brutal crime ocorrido na zona norte do Rio de Janeiro, onde o garoto João Hélio Fernandes Vieites sofreu barbaramente as conseqüências de tamanha insensibilidade por parte dos assassinos, um deles menor de idade, uma coisa fica martelando a nossa cabeça e nos questionando sempre que ouvimos falar destes crimes bárbaros: como pode um ser humano ser tão insensível, tão anti-social a ponto de cometer tal crueldade, sem transparecer um mínimo de dor, de constrangimento pelos seus atos?
Uma das respostas pode ser encontrada nas teorias psicológicas que tratam da transmissão da informação. O primeiro contato com a realidade vem através da percepção, que é o contato que o organismo mantém com seu ambiente, seu estado interno, suas próprias posturas e movimento, segundo um de seus livros-texto, Percepção Humana, do professor e pesquisador australiano, Dr. R.H.Day. Segundo este pesquisador, o processo perceptual consiste no recebimento de mudanças de energia que incide sobre s células receptoras, a transdução – conversão – desta energia em impulsos elétricos nas células nervosas e a codificação dos impulsos para preservar a informação sobre os eventos externos e internos – uma dor, por exemplo – transmitida pelos padrões de estimulação de energia. Portanto, o estudo da percepção deve começar com os exames dos impulsos eletromagnéticos – luz e calor ; os mecânicos – vibrações acústicas; e químicos – substâncias sólidas, líquidas e gasosas; pela informação contida na mensagem, as células e sistemas sensoriais que recebem e transmitem a informação e a maneira pela qual a informação é codificada; ou seja, compreendida.
De tudo isso, o interessante é que pesquisas demonstraram que as células sensoriais evoluíram de acordo com o habitat, o comportamento e necessidades do animal, numa amplitude muito além daquelas que atingem o homem. E, no primeiro capítulo, este professor relata experiências realizadas com animais que demonstraram incrível percepção com vistas à sua própria sobrevivência. E, nós, seres humanos, será que percebemos tão pouco o que se passa a nossa volta? Será que os nossos representantes políticos, a imprensa, o poder Judiciário e todas as autoridades ‘eminentes’ neste país percebem tão pouco o que se passa em nossa cidade, nosso bairro, nosso estado? Percebem pouco o que se passa na periferia das grandes cidades, onde a desigualdade social é reveladora por si só, e que os menos favorecidos percebem e sentem os percalços da vida em sociedade? Será que eles percebem o quanto a falta de estrutura física, educacional e psicológica afeta o comportamento destes jovens, que não conseguem ver espaço para eles no meio social? Se, até para a classe média, como esclareceu um especialista em comportamento no programa do Faustão, as dificuldades são tamanhas, o que dirá para as classes menos favorecidas! A brecha para a violência só pode surgir de um cenário aterrorizante, que sabemos ser construídos pelo tráfico de drogas, principal combustível para essa realidade. Então, vamos continuar assim até quando? Até que o estado de guerra instalado nos morros e na cidade do Rio de Janeiro chegue até nós, visto que a estrutura social no Brasil se assemelha em todos os estados? Até quando, tanta insensibilidade e tanto preconceito? Até quando, tanta violência? Somos incapazes de mudar o nosso país, a nossa cidade, o nosso estado, para um lugar melhor ou vamos persistir num modelo ultrapassado de convívio social?
A autora, Adriana Nigro Cardia, é mestre em Ciências da Comunicação pela USP