09 de julho de 2026
Regional

Foto inédita de raia premia Botucatu

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Botucatu – Anos de pesquisa com raia de água doce e apenas um movimento capturado em foto resultou em premiação para o estudante de pós-graduação Domingos Garrone Neto, que cursa o doutorado em zoologia no Instituto de Biociências (IB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu (a 100 quilômetros de Bauru).

Entusiasta da pesquisa com raias, ele conseguiu um flagrante da espécie encontrada apenas em rios da América do Sul. A imagem, batizada como “Balé subaquático”, foi capturada no mês de setembro de 2006, no rio Paraná, em local que Garrone preferiu não indicar com precisão para garantir sua preservação, já que os estudos continuam.

A imagem foi conseguida durante o dia entre 10h e 14h, período favorecido pela luminosidade do sol. A foto foi conseguida numa profundidade de 2,5 metros com uma máquina digital adaptada para fotografia subaquática. Ele conta que a raia buscava alimento no momento do flagrante.

Na América do Sul há aproximadamente 20 espécies de raia de água doce com ferrões na calda com toxina. “Já encontramos evidências de novas espécies”, revela. Em virtude dessa pista, o grupo inicia um novo ramo de estudos, voltado para a área de biologia molecular.

O projeto de pesquisa “História natural de raias de água doce, com ênfase em espécies da região do Alto Rio Paraná, Brasil” tem como mérito o fato de ser inédito o primeiro trabalho com raia utilizando-se técnicas de mergulho livre, apenas com máscara, nadadeira e snorkel (tubo de respiração), além de técnicas de mergulho autônomo, com equipamento de respiração.

O trabalho é desenvolvido em grupo desde 2002, e as expedições variam de sete a 20 dias e, em média, com o pesquisador permanecendo na água até 14 horas, com mergulhos durante a manhã, à tarde e à noite.

Garrone Neto explica que durante novembro até abril as águas do Paraná estão sujas, devido ao período de chuvas, e o trabalho de observação subaquática fica prejudicado. O ambiente para a observação das espécies livres passa a ser ideal na estiagem, que começa no início de junho e vai até final de outubro, período em que o pesquisador diz conseguir maior número de mergulhos.

Importância

Para Garrone Neto, a importância de seu trabalho é revelar os hábitos das raias em seu ambiente. Ele ressalta que, até então, ninguém havia feito a observação do animal caçando alimentos. Há pesquisas que demonstram o tipo de alimento consumido pelas raias, como camarão e caramujos. No entanto, a forma como a espécie aquática obtém seu alimento ainda permanecia inexplorada. Ele conta que a raia garimpa o fundo do rio à procura do alimento, com movimentos de nadadeiras, o que representa apenas uma das táticas usadas.

Na época em que pesquisou para o trabalho de mestrado, Garrone Neto se embrenhou no Amazonas. Sua pesquisa era no segmento de saúde pública. O pesquisador conta que no rio Amazonas é comum acidentes com raias e que estranhou o fato de que no rio Paraná também tivesse aparição de raias e registro de acidentes.

Foi então que surgiu a curiosidade e o tema para o doutorado. Garrone Neto passou a desvendar um enigma: como as raias chegaram ao Alto Paraná. Segundo sua pesquisa, a ampliação da área de presença das espécie ocorreu em virtude do desaparecimento das sete quedas de Guaíra, para formar a represa de Itaipu, no início dos anos 80.

Ele é colaborador da pós-gradução da Universidade do Sagrado Coração (USC) e da Faculdade Fênix, ambas em Bauru. Em seu doutorado na Unesp de Botucatu é orientado pela professora Virgínia Sanches Uieda, docente do IB.

O prêmio para a foto foi atribuído durante o “17.º Encontro Brasileiro de Ictiologia”, realizado no mês passado em Itajaí, em Santa Catarina. Entre os critérios adotados na seleção estiveram adequação do título com a foto, composição, criatividade, grau de dificuldade de obtenção da imagem e originalidade. Os trabalhos foram analisados por comissão julgadora presidida pelos fotógrafos de natureza Áthila Bertoncini Andrade, Osmar Luiz Jr. e Alfredo Carvalho.