Os bauruenses estão se tornando mais escolarizados. Pelo menos isso é o que dizem as estatísticas oficiais. Segundo levantamento feito junto à Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), a taxa de analfabetismo entre pessoas com 15 anos ou mais caiu na cidade de 8,05%, em 1991, para cerca de 5%, em 2007. A variação do índice registrada no período seria de quase 35%.
Os índices foram aferidos com base no último censo, realizado em 2000 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o Ministério da Educação (MEC), o índice de analfabetismo de 5,12% em Bauru. Isso eqüivale a dizer que aproximadamente 12.500 pessoas na cidade não são capazes de reconhecer sílabas simples, algarismos, ou mesmo desenhar o próprio nome.
A queda na taxa de analfabetismo registrada no município foi praticamente a mesma registrada no restante do Estado (diminuição de 34,5%). A diferença, porém, é que no total das cidades paulistas, o percentual de pessoas sem escolaridade ainda é bastante superior ao existente em Bauru.
Segundo a Fundação Seade, a taxa de analfabetismo em São Paulo está atualmente na casa dos 6,2%. Em 1991, esse percentual era superior a 10%. Ao se depararem com índices tão expressivos, muitas pessoas podem vir a imaginar que a educação melhorou no município nas últimas décadas.
Na visão de profissionais da área, essa visão é errônea. “O que houve foi um aumento de pessoas matriculadas em cursos regulares. Precisamos analisar se as pessoas que estão se formando são capazes de compreender aquilo que lêem ou escrevem”, critica a diretora da Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) em Bauru, Suzy da Silva.
Especialistas da área de educação também criticam os dados oficiais. O principal problema, de acordo com eles, está na forma estreita como o MEC trabalha o conceito de analfabetismo. “Para o ministério, basta que a pessoa saiba desenhar o próprio nome para que ela seja considerada alfabetizada”, explica a professora Vera Casério, coordenadora pedagógica da Faculdade Fênix e doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara. De acordo com o IBGE, o País tem cerca de 13% de analfabetos com 15 anos ou mais.
As críticas aos dados oficiais se avolumam. Elas crescem quase na mesma proporção que os projetos de alfabetização mantidos pela Prefeitura de Bauru. Criado em abril de 2006, o curso de educação de jovens e adultos (Ceja) está presente em 48 bairros da cidade.
De 20 anos para cá, o programa praticamente triplicou sua capacidade de atendimento. Em 1986, eram apenas 480 alunos, distribuídos em 24 salas, a maioria delas na periferia. Hoje em dia, já são 1.420 alunos espalhados em 71 classes, algumas delas localizadas em regiões valorizadas da cidade.
O universo dos freqüentadores do Ceja é composto basicamente por desempregados ou profissionais de baixa renda que lutam para, pelo menos, terminar os quatro primeiros anos do ensino fundamental.
A missão - simples para a maior parte das crianças de hoje em dia - é extremamente complicada para os adultos que abandonaram a escola na época da infância. Muitos deles buscam apoio na família para poder continuar com os estudos.
A dona de casa Marta Rodrigues Pereira, 36 anos, só resolveu voltar à escola depois que o filho de 8 anos passou a lhe pedir ajuda com as lições de casa. Já o cozinheiro Jonas Guimarães Neves contou com incentivo providencial da esposa para criar ânimo de freqüentar as aulas depois do horário de trabalho.
Mas nem todos têm a mesma disposição para retornar aos estudos. Valmir da Cunha Pereira, 45 anos, não quer nem ouvir falar de escola por enquanto. “Trabalho o dia todo e acabo ficando muito cansado. Não tenho ânimo”, afirma. Já Ivonete da Silva Santos, 32 anos, até que gostaria de voltar às aulas, mas ainda está indecisa. “Quando eu era jovem, não fui capaz. Não sei se agora, que estou velha, conseguiria”, pensa.
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Problema está longe de ser solucionado
Na opinião de especialistas e profissionais da área de educação, os índices oficiais de analfabetismo não refletem a realidade existente em Bauru e no restante do Brasil. “Esses números são falsos. Existem muitas distorções nos conceitos utilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)”, afirma a professora Vera Casério, coordenadora pedagógica da Faculdade Fênix e doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.
O primeiro defeito apontado por ela reside no fato do órgão, ligado ao Governo Federal, aferir o analfabetismo somente entre pessoas com 15 anos ou mais. “Onde entram aqueles que têm menos idade?”, indaga. Na visão dela, a exclusão dessa faixa etária das estatísticas ajuda a camuflar a defasagem educacional que impera no País. A principal crítica feita pela professora, no entanto, é direcionada ao próprio conceito de analfabetismo.
“O Ministério da Educação (MEC) trabalha com definições antigas, da época do Regime Militar. Naquele tempo, bastava que a pessoa soubesse rabiscar o próprio nome para que fosse considerada alfabetizada”, explica.
No período, conta Casério, as políticas públicas tentavam enfatizar a questão da assinatura por motivos eleitorais. “Apenas os alfabetizados podiam votar, por isso todo mundo precisava chegar às urnas sabendo escrever o próprio nome”, diz ela.
Para ela, só poderiam ser considerados alfabetizadas pessoas capazes de ler nas entrelinhas. “Além de compreender as palavras, é preciso também entender o contexto em que cada termo é empregado”, diz.
Para a diretora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) em Bauru, Suzy da Silva, os índices oficiais de analfabetismo também são falsos. “Hoje em dia, muitas crianças saem da escola sem ter aprendido nada”, pensa. Na opinião dela, as instituições de ensino do País estão formando uma geração de analfabetos diplomados.
Casério tem opinião semelhante. “Se não houver investimento maciço em educação básica e na formação dos professores, vamos continuar produzindo analfabetos em larga escala”, acredita. De acordo com ela, as escolas brasileiras promovem estudantes que serão reprovados pela vida no futuro.