09 de julho de 2026
Bairros

Analfabetos sobrevivem na informalidade

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Quando eram crianças, eles precisaram parar de estudar para garantir o próprio sustento. Agora que se tornaram adultos, não sabem como fazer para ganhar a vida em um mundo cada vez mais dominado pelas novas tecnologias. Os analfabetos de Bauru (e do restante do País) estão colocados à margem da economia formal.

Sem acesso à educação básica, a maioria deles sobrevive às custas de trabalhos precários e mal remunerados. Essa realidade é fácil de ser constatada quando se observa o perfil dos freqüentadores das 71 salas de alfabetização mantidas pela prefeitura. A Secretaria Municipal de Educação detectou que grande parte dos 1.420 alunos do curso de educação de jovens e adultos (Ceja) está atualmente no mercado informal.

“São pedreiros, auxiliares de serviço, diaristas, vendedores ambulantes e coletores de material reciclável. Entre eles há também muitos desempregados”, explica Aparecida Idalina Rover, diretora da divisão de educação de jovens e adultos da Secretaria Municipal de Educação.

Benedita da Fonseca de Mesquita tem 53 anos, cinco filhos e não sabe sequer desenhar o próprio nome. “Quando preciso assinar algum documento, uso o ‘dedão’”, diz. Como prova, exibe o RG no qual consta um carimbo em letras garrafais avisando que ela é uma “Não Alfabetizada”.

Mesquita mora no Parque Ferradura Mirim (zona leste de Bauru) e atualmente está desempregada. “No meu tempo de ‘nova’ (quando era adolescente), os patrões não exigiam que a gente tivesse muito estudo”, explica. Por muito tempo, ela ganhou a vida se dedicando a trabalhos informais em sítios e fazendas.

“Coisas do mato eu conheço: tirar leite, carpir ou arrumar cerca é comigo mesmo. O problema são esses serviços de hoje em dia”, afirma. Há cerca de uma semana, Mesquita começou a freqüentar uma sala do Ceja, na esperança de pelo menos aprender a rabiscar a própria assinatura. “É que já andei tendo problemas por não saber escrever”, diz.

José Eduardo Faustino de Andrade, 48 anos, é vizinho de Mesquita e também é analfabeto, mas, por enquanto, não pretende voltar a estudar. “De vez em quando, até tenho vontade, mas preciso pensar direito antes de tomar uma decisão”, explica.

Hoje ele está aposentado por invalidez, mas quando estava na ativa sempre se dedicou a trabalhos precários. “Eu sabia fazer de tudo. Era pedreiro, pintor, jardineiro, carpinteiro”, recorda. Nascido em Agudos, Andrade freqüentou a escola durante dois anos apenas. “Eu ia às aulas, mas não aprendia nada”, diz.

Na época, ele tinha nove irmãos e precisou parar com estudos para ajudar no sustento da casa. “Além disso, a gente morava na roça e a escola ficava longe demais. Eu tinha de andar 12 quilômetros no meio do mato para chegar até lá. Acabei desanimando”, conta.

Dos três filhos de Andrade, apenas uma ainda continua freqüentando a escola. “Ela tem 16 anos e está na 5.a série”, diz. Ao menos, isso é o que ele supõe. Divorciado há algum tempo, o aposentado acabou perdendo contato com parte família. Em determinado ponto da conversa, ele admite não estar certo sobre o paradeiro da garota. “Parece que ela está morando com a mãe em Piratininga. Não sei se lá ela continua estudando”, diz.

Andrade tem um filho chamado José Natalino. Aos 23 anos, o jovem não sabe sequer assinar o nome. “Ele nunca gostou de ir à escola”, afirma o pai. Ultimamente, o aposentado anda preocupado com o rapaz. “Vivo dizendo para ele voltar a estudar, só que ele acha ruim e nem me dá bola”, garante.

José Natalino trabalha na roça e nunca teve emprego fixo. “Ele sabe mexer com gado e plantação como ninguém, mas não sei se isso dá futuro”, pensa o aposentado. Andrade tem medo e vive indagando ao filho: “E agora José?”. Teimoso, o rapaz fecha a cara e sai andando, sem responder.

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Perdido

Emílio de Oliveira faleceu há pouco mais de um mês. Quando era vivo, morava no Parque Ferradura Mirim e era aposentado. Pai de três filhos, ele não sabia ler e escrever. “Nunca foi à escola”, garante a viúva dele, Benedita da Fonseca de Mesquita, que também é analfabeta.

Quando se casaram, cerca de 30 anos atrás, os dois moravam em sítios e fazendas e não precisavam ter muito contato com as palavras escritas. Por essa razão, a família vivia tranqüila. Tudo ia bem, até que, há aproximadamente 15 anos, o casal resolveu vir morar em Bauru.

Na cidade que não tem limites, repleta de placas e letreiros, os dois ficaram confusos. Logo depois da mudança, a esposa adoeceu e teve de ser internada. “Fiquei uns dias no hospital (ela não recorda o nome do lugar) e depois tive alta”, conta Mesquita. Nesse período, Oliveira permaneceu ao lado da mulher.

Quando ela foi liberada, porém, o marido resolveu voltar logo para casa. “Pedi que me esperasse, só que ele disse que precisava comprar comida para os meninos”, diz. Como não sabia ler, Oliveira saiu andando sem rumo. “Ele olhava as placas e não sabia para onde ir”, diz a esposa.

Oliveira, que pretendia ir até o Parque Jaraguá, zona noroeste da cidade, acabou indo parar na Vila Aviação, região sul de Bauru. “Quando chegou em casa, já era noite e fazia tempo que eu estava esperando por ele”, diz a viúva.