No passado, muitos pais costumavam criar as meninas para casar. Por essa razão, hoje em dia muitas mulheres são analfabetas ou semi-alfabetizadas. “Antigamente as famílias eram numerosas e não tinham condições mandar todos os filhos para a escola. Se alguém da casa tivesse de estudar, essa pessoa quase sempre era o homem”, explica a professora bauruense Vera Casério, coordenadora pedagógica da Faculdade Fênix e doutora em educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Araraquara.
Esse é um dos motivos pelos quais Ivonete da Silva Santos, 32 anos, encontra-se atualmente desempregada. É que devido à rigidez do pai, ela freqüentou a escola durante três anos somente. “Ele achava que moça não precisava estudar”, conta. Moradora do Parque Ferradura Mirim, ela já foi diarista e coletora de material reciclável. Nunca teve emprego fixo com carteira assinada.
Santos saiu de casa aos 17 anos e depois disso nunca tentou voltar a estudar. “Não consegui quando era nova. Como serei capaz agora que já estou ficando velha?”, questiona. Marta Rodrigues Pereira, 36 anos, discorda dessa opinião.
Ela vive no Núcleo Joaquim Guilherme (zona sudoeste de Bauru) e está freqüentando uma sala de alfabetização que funciona na escola municipal de educação fundamental (Emef) Ivan Engler. “Meu pai era muito rígido e achava que as filhas não podiam sair de casa sozinhas”, recorda. A Secretaria Municipal de Educação estima que, atualmente, 60% dos participantes do curso de educação de jovens e adultos (Ceja) são mulheres.
Para ir à escola, Pereira precisava ser acompanhada pelo irmão mais velho. Só que aí residia um problema grave. “Ele não gostava de estudar. Conseguiu ir só até a 2.a série e depois parou”, diz. A garota foi obrigada a abandonar a escola. “Quando eu tinha 17 anos, eu e ele tentamos voltar”, conta.
Outra experiência fracassada. Aos 23 anos, Pereira resolveu arriscar novamente. Só que dessa vez, ela resolveu trocar de pagem. “Ia com meu irmão mais novo. Consegui terminar a 3.a série. Depois acabei me casando e parei de vez”, diz.
Hoje, de volta à ativa, ela se alegra por poder colaborar com os estudos do filho Rafael. “Sempre que ele não entende algo da lição de casa, vem e me pede ajuda”, afirma. Pereira pretende continuar freqüentando a escola até completar o ensino médio.