08 de julho de 2026
Saúde

Anencéfala atinge recorde de longevidade

Por Luís Fernando Manzoli | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Quando era um feto de quatro meses no útero da agricultora Cacilda Galante Ferreira, 36 anos, Marcela de Jesus foi considerada “inviável’’ por ter anencefalia, uma má-formação que inibe o surgimento do cérebro no desenvolvimento do bebê. Na quinta-feira, a menina completou 94 dias de vida e se tornou a criança com anencefalia com maior longevidade no Brasil, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), que diz ter existido, há cinco anos, no Interior de Goiás, um menino que viveu três meses.

Segundo a entidade, metade dos bebês com anencefalia morre no útero da mãe - o restante vive poucas horas ou minutos após o parto. “A sobrevivência prolongada surpreende, mas o prognóstico ainda é o mesmo de quando ela nasceu’’, disse a pediatra Marcia Beani, que cuida de Marcela desde o parto, em 20 de novembro.

Desde então, Marcela já teve problemas graves, como uma parada cardíaca, convulsões e febres, mas não tem intercorrências clínicas há 59 dias. A menina é alimentada com leite por sonda, 45 ml a cada três horas, e respira com ajuda de capacete de oxigênio, mas fica até 30 minutos fora do aparelho. Como tem pequena parte, frontal, do cérebro, Marcela reage a estímulos, como pegar na mão, mas é incapaz de ter outras atividades cerebrais.

O presidente da Comissão de Aborto Previsto em Lei da Febrasgo, Jorge Andalaft Neto, afirma que o tempo de vida da bebê “já é um recorde nacional’’. “Marcela vai ficar para a história.’’ Apesar disso, o otimismo deve vir com cautela, segundo Andalaft Neto. “Na medida em que a criança cresce, o cerebelo e o tronco cerebral não serão suficientes para segurar o desenvolvimento.’’

A resistência de Marcela motiva grupos antiaborto. Para Humberto Leal Vieira, presidente da Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família, o recorde deve ser comemorado. “Marcela é prova viva de que a pessoa anencéfala não é um amontoado de células, mas um ser vivente. Ninguém tem o direito de abreviar a vida’’, diz.

Por conta da estabilidade de Marcela, a médica Marcia Beani disse que a menina já pode ter alta e deixar o quarto cedido pela Santa Casa de Patrocínio Paulista, onde está com a mãe desde o nascimento. Para isso, a família - que vive em um sítio a 18 km do centro- precisa arrumar local perto do hospital.

O provedor do hospital, Emílio Bertoni, disse que a bebê e sua mãe podem ficar o “tempo que for preciso’’ na Santa Casa. O SUS (Sistema Único de Saúde) não cobre os gastos com a menina. De 20 de novembro a 31 de dezembro do ano passado, o hospital gastou R$ 2.500,00 só com o oxigênio de Marcela. “Só vamos levantar o total de gastos quando a história chegar ao fim’’, afirma Bertoni.

Por mês, a plantação de café e frutas no sítio dos Ferreira rende R$ 700,00. Mesmo que se mudem para uma casa no centro, Cacilda e Marcela continuariam longe da família - ela tem duas irmãs -, que a visita no hospital às terças, sextas e domingos. “Não posso deixar o sítio por causa do meu pai, que não sai de lá de jeito nenhum’’, diz Dionísio Ferreira, 46 anos, pai de Marcela. “Vamos ter que nos dividir em duas casas.’’

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Caso incentiva movimentos antiaborto

A trajetória de Marcela de Jesus tem sido marcada pela abnegação da mãe, Cacilda Ferreira, e pela gravitação em torno da menina de religiosos e de grupos antiaborto. Na Internet, a comunidade “Força Marcela Oramos por Vc’’, criada por militante espírita, tinha hoje 1.148 membros e a maioria dos posts com frases de cunho religioso e pregação contra o aborto.

No site da ONG Pró-Vida Anápolis (www.provida anapolis.org.br), há até vídeo do batizado da menina gravado pelo diácono Fábio Costa, que a batizou. No texto, o título “Marcela: o fato que faz calar o argumento’’ e o subtítulo “Contrariando tudo o que dizem os abortistas, ela insiste em permanecer viva’’ mostram a dimensão da menina na luta antiaborto.

Em Franca, o bispo emérito Dom Diógenes Silva Mathes pediu aos padres que citem o caso da menina nas pregações. Padres, freiras e pastores evangélicos têm visitado regularmente a menina. Na trajetória de Marcela, dois fatos de destaque. O primeiro foi a visita à menina, em novembro de 2006, de uma mãe de Franca que dias antes obteve na Justiça autorização para antecipar o parto de menino anencéfalo - o bebê morreu ao nascer. Outro foi a decisão da estudante fluminense Ana de Oliveira Silva, 18 amps, grávida de seis meses de um bebê anencéfalo, de desistir do aborto após saber do caso de Marcela.