09 de julho de 2026
Articulistas

O ouro de Bauru (II)


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O sol já ia alto quando o “moço espigado, farta cabeleira encaracolada” e calçando botas de cano alto puxou as rédeas do cavalo para cruzar o Rio Bauru em prudente marcha. Certamente vinha com o pensamento no Banco de Crédito Rural, que haveria de inaugurar naquela manhã de 19 de outubro de 1910. Seria o primeiro banco de uma cidade em busca dos seus próprios caminhos. Essa audácia contrariava interesses dos que viam Bauru apenas como fonte de renda. Se a cidade adquirisse vida própria com o financiamento barato à produção, o lucro fácil da usura deixaria de existir. Antes que chegasse à cabeceira da ponte improvisada com toras serradas ao meio, a viagem do cavaleiro foi interrompida pelo estampido seco de uma “44”. Azarias Ferreira Leite, esse o nome do alvo, cai mortalmente ferido. De nada valeram os esforços para estancar a hemorragia. O sonho de um Banco que livrasse a comunidade dos agiotas teve que ser adiado. Azarias veio de Minas para Bauru, em fins do século XIX para acompanhar o sogro João Batista de Araújo Leite, “o orientador político da comunidade”. Sucedeu-o nessa função. Foi vereador, prefeito e presidente da Câmara. Montou um jornal – “A Cidade de Bauru” -, empastelado pelos inimigos. Pôs em concorrência a rede de água e esgoto, coisa pra macho. Empenhava-se em criar a Comarca e isso também contrariou os interesses da circunscrição. Por isso foi morto por um pistoleiro contratado.

O local onde esse primeiro mártir bauruense foi emboscado é claramente identificado pelo jornalista Carlos Fernandes de Paiva em suas “Narrativas” sobre a fundação de Bauru: “200 metros do fim da Rua Araújo Leite”, na margem de lá do Rio Bauru. Nenhum memorial. Sequer uma placa para conhecimento das gerações que se sucederam ao fato. Poucos sabem que às margens daquelas águas poluídas, um dia alguém derramou o seu sangue para que Bauru cumprisse o seu destino de cidade-grande.

Cultura política é construída pelas crenças, os ideais, as normas e as tradições que dão um peculiar colorido e significação à vida de uma sociedade. Sem cultura não se cria identidade e, sem identidade não se chega à civilização, disseram Lasswell e Kaplan em “Poder e Sociedade” (1950). Cidades e até países morrem por falta de tradição cultural. Por isso é importante a preservação dos valores. As utopias produzem maravilhas. Se o homem não sonhasse ainda estaríamos na idade da pedra.

Informação óbvia e infantil? Concordo. Mas, acompanhe-me aquele que raciocina em cifrões, o quanto é importante a cultura como geradora de riquezas. O garoto bauruense Osires Silva, começou a fazer aeromodelos numa “escolinha” no antigo prédio da CPFL. Aprendeu a pilotar no Aeroclube, entrou na FAB, formou-se em engenharia no ITA, e, com essa bagagem fundou a Embraer que hoje é a terceira maior fábrica de aviões do mundo. Se um alemão chamado Heindrich Kurt não tivesse dedicado toda a sua vida à construção de máquinas voadoras e instrução de vôo em Bauru, com toda certeza o sucesso do talentoso menino, filho do eletricista, aconteceria em outra profissão. No entanto, jamais teria sonhado com o “Bandeirante” e a Embraer não existiria. Para o Aeroclube existir foi preciso que Marinho Lutz, diretor da NOB, acreditasse na visão de outro bauruense nascido no Rio, Luiz de Gonzaga Bevilacqua. Se um japonês chamado Marono, pai do Luiz e fundador dos Bancários, não fosse um artesão depositário de uma cultura milenar da marcenaria do seu país, os hangares de madeira não seriam possíveis. Olhe para o alto. Veja a perfeição das treliças, encaixes, tesouras e distribuição de forças. Sem esse artesanato do Marono e de outros trabalhadores da Noroeste, os hangares não estariam de pé, firmes até hoje. Ao olhar para o teto de um dos pavilhões o bauruense poderá ver pendurado o “Canguru”, primeiro planador construído por Kurt com as tábuas de pinho de Riga aproveitados dos caixões que vinham da Suécia com as bicicletas Husqvarna. O Canguru alçava vôo puxado por cabo de aço e rebocado desde um velho jipe. Outro garoto, de sobrenome Neiva, discípulo do Kurt, construiu ali dois planadores que até hoje voam. Formou-se engenheiro, projetou aeronaves a motor e fundou uma indústria aeronáutica em Botucatu. Produziu aviões de treinamento para a Força Aérea e para pulverização agrícola. Hoje a fábrica é um braço importante da Embraer. Outro alemão chamado Widmer, construiu no Aeroclube o “Flamingo”, de asas de gaivota. Seu filho, o “Batata”, foi campeão brasileiro de volovelismo e destacou-se em competições mundiais.

Assassinos culturais sempre existiram. Ficam de tocaia atrás do faveiro, como o jagunço que vitimou Azarias. Até em Paris, berço da civilização, quiseram desmontar a Torre Eiffel, hoje símbolo da cidade. Salvou-a o rádio. A França precisou da torre para montar a antena da mais poderosa estação difusora do mundo. Haveremos também de ter um fato novo que poderá salvar o Aeroclube de Bauru e o pouco da cultura que soubemos, mal-e-mal, cultivar.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC