08 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Carretas e reboques


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Nem sempre se consegue carregar no carro tudo o que se quer, seja pelo volume ou peso do objeto a ser carregado, ou pelo espaço disponível dentro do veículo. Nestes casos, quando possível, recorre-se às carretas ou reboques, puxadas pelo carro através do engate próprio na traseira. Como tudo na vida, não é tão simples como muitos pensam e agem. Tudo tem certa ciência e técnica, uma maneira correta de fazer as coisas.

A começar pelo engate, que deve ser rigidamente fixado no chassi ou, na falta deste (por ser monobloco), nos reforços de suspensão. Esses “espertos” (para não dizer o termo exato) que instalam e usam engate para “proteger o pára-choque” sabem que não irão nunca puxar uma carreta e, portanto, o instalam na chapa do assoalho traseiro, apenas como fixação. Ao primeiro toque mais forte o engate cede e, além de amassar o pára-choque (razão primária de sua instalação), ainda rasga a chapa do assoalho, dando um prejuízo brutal ao proprietário, no caso, próprio otário. Um engate bem instalado deve ter ainda sua conexão elétrica adequada, conectando o sistema de iluminação e sinalização do veículo ao da carreta.

Agora, a carreta em si. Ela é um veículo também, e como tal deve ser concebida e projetada. Ela viajará pelas mesmas estradas que o carro e na mesmíssima velocidade, obviamente. Portanto, não é qualquer serralheiro amigo seu que pode construir uma. Soldar chapas e tubos, adaptar um eixo com rodas e colocar um engate é fácil, mas dimensionar as peças e posicioná-las adequadamente requer estudo e cálculos de resistência e dinâmica.

Os esforços sobre a lança ou tubo de engate deve ser tal que permita manter o contato entre a bola e o engate de forma que não se desconectem nem transfiram peso vertical demais para o veículo. Um engate é projetado para rebocar cargas horizontalmente e não verticalmente, sendo limitado no sentido vertical a um esforço máximo de cerca de 50 kg apenas. Para se atingir esta distribuição de pesos deve-se posicionar o eixo da carreta de forma que a carga transportada seja distribuída adequadamente, 50 kg para o engate e o restante sobre o eixo.

Isto se faz com cálculo de momento aplicado sobre os pontos de apoio (roda e engate). Normalmente em uma carreta pequena se posiciona o eixo cerca de 10 cm para trás do centro de gravidade do compartimento de carga, que é o suficiente para esta distribuição de pesos. Este recuo do eixo também tem uma função dinâmica importante, pois faz com que o centro de gravidade da carreta se localize entre o eixo e o engate, permitindo uma trajetória mais estável.

Em muitas destas carretas caseiras que rodam por aí, é comum ver-se o eixo bem no meio da caçamba, no incorreto modo de pensar de que vai distribuir melhor o peso. Ao serem rebocadas, passam a ter um comportamento instável e ficam dançando na pista, “passarinhando”, como se diz. A exata localização do centro de gravidade, tanto carregada quanto vazia, permite um rodar seguro e estável do conjunto carro-carreta em qualquer situação.

Nunca esquecer de fixar uma corrente (duas é o ideal, uma de cada lado) entre a lança e o engate, pois em caso de quebra ou desconexão do engate, a corrente não permite que a carreta se desconecte do veículo. Em velocidade, uma carreta desgovernada pode causar (e causa!) sérios acidentes com morte, como muitas vezes já registrado, em que carretas se desprenderam dos engates e se chocaram de frente com carros que vinham em sentido contrário.

A segurança vem sempre em primeiro lugar e começa na escolha de uma carreta bem projetada, construída e homologada pela legislação e não por uma mais barata, feita por um espertinho qualquer, seja ele bem ou mal intencionado. Existe ciência para tudo e ela deve ser aplicada sempre, como o é em todo bom projeto.

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Sugestões para a coluna e perguntas à seção Correio Técnico devem ser enviadas ao e-mail automerc@jcnet.com.br ou à redação do Jornal da Cidade, na rua Xingu, 4-44, Higienópolis. É obrigatório informar nome completo, RG, endereço e contato (telefone ou e-mail).

* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e assina uma coluna na revista Quatro Rodas Nitro. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.