No ano passado as exportações brasileiras cresceram 17% em valor, mas a quantidade exportada cresceu menos de 5% . Cerca de 12% da expansão das exportações se devem simplesmente ao aumento do preço dos produtos. Neste ano de 2007 corremos um risco real de ver o aumento da quantidade de produtos exportados se aproximando de zero, quer dizer, crescimento nulo, isso num momento em que já se observam os sinais de desaquecimento da economia mundial e, portanto, perspectiva de crescimento mais lento dos preços. Não devemos ignorar que o sucesso que tivemos nos últimos quatro anos no comércio exterior brasileiro, principal responsável pelo acúmulo recorde de reservas de 100 bilhões de dólares que ora se comemora, se deve a duas circunstâncias: à própria expansão da economia mundial desde o início do século e ao aumento vertiginoso dos preços dos produtos que exportamos, uma situação na verdade produzida por aquela expansão .
Não é uma situação muito saudável ficarmos pendurados na elevação dos preços mundiais, mesmo quando eles atingem em bloco aqueles setores onde somos fortes competidores. Ora, dois mil anos de história já deveriam ter ensinado aos brasileiros que não existem aumentos de preços definitivos porque é da própria natureza do comércio que eles subam e desçam. Nos últimos 4 anos o Brasil se beneficiou dos aumentos de preços provocados pelo crescimento da economia mundial de uma forma que não costuma se reproduzir muito: tivemos crescimento forte nos Estados Unidos simultaneamente ao espantoso crescimento chinês , a recuperação da economia japonesa e a própria Europa mesmo continuando meio murcha , crescendo entre 2,5 % a 3% . O Brasil era aquele barquinho que estava no mar, o nível do mar subiu e nós subimos com ele. Não é uma situação confortável, no entanto, verificar que nosso crescimento depende da força que vem de fora. Nós estamos usando essa energia, mas é uma energia que está fora de nosso controle.
No curto prazo os preços se mantêm porque a demanda dos nossos produtos continua crescendo, embora de forma menos robusta, enquanto a oferta desses mesmos produtos demora um pouco a se realizar. É um equívoco acreditar que é uma situação imutável: basta observar os enormes investimentos que estão sendo feitos para aumentar a oferta de minério de ferro, de níquel, de cobre, de cimento, alumínio etc. de forma que em dois ou três anos deve aumentar a oferta desses produtos e com a demanda entrando numa certa murcha (porque já cresceu o que tinha de crescer), vai haver o ajuste de preços. Nos devíamos estar debruçados hoje neste problema, buscando meios de dar suporte ao setor exportador para investir na diversificação da pauta de produtos e criar condições de política econômica para atrair de volta as empresas que pararam de exportar por força da defasagem cambial. Preferimos, como de hábito, fazer festa para o menos relevante, como essa história da ultrapassagem de 100 bilhões de dólares de reservas. Isso não tem nada de excepcional pois nesse período de expansão do comércio mundial todos os países aumentaram suas reservas . A China por exemplo está com reservas de 1 trilhão e 100 bilhões de dólares e com o doce dilema de saber o que fazer com elas a não ser comprar títulos do Tesouro dos países vizinhos , pois já está abarrotada de títulos americanos que rendem 5,5% ao ano . Sua taxa de juros interna é de menos de 2% .
O que é diferente no Brasil é o custo social de manter a reserva externa de 100 bilhões pois nós pagamos nossa dívida interna com um juro muito maior do que a taxa que essas reservas vão obter lá fora. Em nenhum lugar há uma diferença tão grande entre taxas de juro interna e externa como no Brasil que porisso continua sendo o grande presunto à disposição dos especuladores financeiros. Não há nenhuma dúvida que temos o maior custo social do mundo entre as nações emergentes: cada dólar colocado em nossas reservas custa mais do que qualquer dólar colocado nas reservas dos demais países.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-deputado e ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento