07 de julho de 2026
Ser

Sem amarras

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 8 min

Quando alguém fala em fazer terapia, logo vem à mente a imagem do analista sentado confortavelmente em sua poltrona, anotando os dissabores de seu paciente, por sua vez deitado no divã. Com certeza essa imagem não será vista no ambiente de trabalho onde a psicóloga e psicoterapeuta corporal Giovana Borgato Manflin atende seus pacientes.

A psicoterapia corporal é também chamada de psicoterapia reichiana ou neo-reichiana, em referência a Wilhelm Reich, que foi discípulo de Sigmund Freud, mas resolveu seguir seu próprio caminho, aproveitando a idéia inicial de Freud, de chegar à mente trabalhando o corpo.

Apesar de ser uma vertente da psicanálise, a psicoterapia corporal foge dos clichês estabelecidos na relação entre terapeuta e paciente e busca essencialmente equilibrar a mente, através do trabalho corporal, com exercícios determinados.

O objetivo dessa psicoterapia, além de estabelecer este equilíbrio corpo e mente, é fazer com que os pacientes sejam impulsionados a seguir seu próprio caminho, sem amarras, aceitando o fato de ser uma pessoa com virtudes e defeitos, mas sabendo conviver com as duas coisas.

A psicóloga Giovana Borgato Manflin mostra que o paralelo entre corpo e mente, buscado na psicoterapia corporal, ajuda a pessoa a conquistar a auto-regulação, que nada mais é do que o ser humano regular sua própria energia e, por conseqüência, seus pensamentos e emoções, oferecendo a ele a oportunidade de ter uma vida mais saudável.

Atuando há três anos na área por meio do Instituto Raiz, Giovana Borgato Manflin aponta que a integração entre o terapeuta e o paciente é fundamental nesta vertente da psicoterapia. Essa integração facilita, segundo ela, sobretudo na conquista do principal objetivo da psicoterapia corporal: fazer com que as pessoas caminhem com as próprias pernas. Esta e outras idéias são defendidas pela psicóloga na entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos a seguir.

Jornal da Cidade – O que é a psicoterapia corporal?

Giovana Borgato – A psicoterapia corporal vem da psicanálise. Tem a base psicanalítica, mas inclui o corpo. Então, ela tem todo esse fundo da psicanálise, mas trabalha mente e corpo, com exercícios específicos. E o objetivo dela é o autoconhecimento corporal.

JC – Além desse autoconhecimento, existem outros objetivos? Quais são eles?

Giovana – Os objetivos defendem de cada indivíduo, porque cada um possui sua subjetividade, mas fazendo esse paralelo corpo e mente ele vai ter uma auto-regulação. O que a gente busca é isso: o próprio indivíduo conquistar sua auto-regulação, ou seja, enxergar as situações e saber lidar com elas e se colocar corporalmente nessas situações.

JC – É uma vertente da psicanálise voltada para o equilíbrio entre corpo e mente...

Giovana – Na verdade, nenhuma das psicoterapias deixa de colocar o corpo, mas na psicoterapia corporal neo-reichiana o corpo é mais evidente. A gente não está olhando só para o rosto da pessoa, nós analisamos o corpo, as nuanças do corpo. A partir do momento que a pessoa entra no processo terapêutico, ela não está só o mental, está por inteiro. Isso parte da psicanálise, que começou a ser difundida com o Freud (Sigmund Freud viveu entre 1856 e 1934 e é considerado o pai da psicanálise) e aí vem o Reich (Wilhelm Reich viveu entre 1897 e 1957 e foi discípulo de Freud) e coloca o corpo, que foi uma das primeiras hipóteses do Freud, mas ele abandonou e partiu para a psicanálise. O Reich vai resgatar tudo isso e incluir o corpo. Nossa abordagem na verdade é reichiana ou neo-reichiana.

JC – Ou seja, na psicanálise “tradicional”, o foco está na mente, para atingir o corpo, enquanto a psicoterapia corporal trabalha o corpo para atingir a mente?

Giovana – Quando a gente mexe no corpo, mexe no mental e vice-versa. Esse é o pensamento, e os dois são importantes; quando a gente trabalha um, atinge o outro.

JC – Quais são os benefícios da psicoterapia corporal?

Giovana – Eu falo que qualquer psicoterapia traz um benefício enorme para a pessoa, por conta do autoconhecimento. Eu faço psicoterapia há muito tempo e falo pessoalmente disso, porque vi em mim e hoje, trabalhando com meus pacientes, eu vejo, nos aspectos individuais, cada coisinha conquistada pelo paciente, cada avanço é compartilhado. Quando a gente compartilha fora do ambiente familiar, do ambiente dos amigos, isso se torna mais rico para a própria pessoa, porque ela vai descobrir coisas que ela não conseguia enxergar antes. Isso já é um avanço, esse é o benefício, o autoconhecimento é o benefício.

JC – A psicoterapia faz uma espécie de “levantamento” do que é a pessoa, deixa a pessoa transparente...

Giovana – É, e isso não acontece do dia para a noite, é um processo vagaroso, porque não é fácil a gente enxergar o que não gosta, enxergar os defeitos.

JC – As pessoas tendem a colocar suas virtudes acima de qualquer coisa, e a idéia é trazer à tona também os defeitos?

Giovana – Exatamente, porque todo mundo tem o lado bom e o lado ruim. Não existe uma pessoa só boa e uma pessoa só ruim. E quando a pessoa consegue enxergar o lado ruim, ela também consegue enxergar o lado bom. Até acentua, porque aceitando seus defeitos você acentua suas qualidades.

JC – Como é a aceitação das pessoas ao tratamento. Quem procura o instituto já passou por outras formas de terapia ou vêm sem saber do que se trata?

Giovana – Existe uma dificuldade das pessoas. É interessante porque, quando uma pessoa precisa de psicólogo, não tem idéia que existem várias linhas dentro da psicologia, porque não é só a freudiana ou a neo-reichiana, são várias linhas dentro da psicologia. A pessoa que procura não tem essa idéia de linha, ela acha legal a psicoterapia corporal porque agrega ao corpo. Em Bauru as pessoas não a conhecem, porque não é bem difundida.

JC – Existe algum tipo de preconceito dentro da área com relação ao trabalho de vocês?

Giovana – Não, porque existem várias linhas na psicologia. Eu, particularmente, respeito todas elas e acho que todas têm validade. A partir do momento que a pessoa tem vontade de fazer psicoterapia, qualquer uma vai ser benéfica, mas a vantagem da psicoterapia corporal é o corpo, o movimento. O paciente que chega aqui não vai ficar uma sessão apenas sentado. Às vezes a gente faz exercícios, às vezes faz a sessão em pé, não é algo fixo.

JC – Foge daquela imagem do divã, do analista fazendo anotações. É uma espécie de integração entre o paciente e o psicoterapeuta.

Giovana – Existe essa integração entre paciente e terapeuta. Na verdade, a psicoterapia neo-reichiana é independente, ela surge da psicanálise, mas hoje é difundida como neo-reichiana e foge daquele clichê do divã.

JC – As pessoas se assustam quando chegam aqui esperando encontrar um sofá ou um divã e encontram um ambiente completamente diferente?

Giovana – Não, porque antes de trabalhar com o corpo existe sempre uma conversa. Quando eu faço a entrevista com o paciente, explico para ele como é o processo, onde ele está entrando, tenho que deixá-lo a par do que vai acontecer.

JC – Existe um tempo de tratamento? Existem casos de pessoas que passam a vida fazendo terapia. Isso ocorre na psicoterapia corporal?

Giovana – Vai depender do seu interesse no autoconhecimento. Chega uma hora que você vai ter que caminhar com as próprias pernas, o que faz parte até do processo da psicoterapia corporal: caminhar com as próprias pernas, porque a gente tem o conceito do ‘ground’, que é um exercício que a gente chama de enraizamento, com os pés paralelos no chão. Então chega uma hora que a pessoa tem que ter essa força nas pernas para caminhar. É isso que a gente incentiva.

JC – Ou seja, não é um refúgio para escapar dos problemas, mas serve para te ajudar a seguir sozinho...

Giovana – É um autoconhecimento.

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Especialização

O Instituto Raiz oferece, a partir deste mês, o curso de especialização em psicoterapia e terapia corporal. O curso tem como finalidade preparar profissionais de todas as áreas para um conhecimento mais amplo do indivíduo em sua totalidade, isto é, corpo, mente e emoção.

O objetivo do curso de especialização é treinar todos os profissionais interessados em incorporar aos seus conhecimentos o pensamento reichiano, pós e neo-reichiano, que integra a relação mente-corpo-emoção, pela idéia de que essas partes integram um mesmo movimento energético e, portanto, devem ser tratadas por igual.

A especialização irá habilitar psicólogos a atuarem de forma clínica e pedagógica, visando a prevenção e o tratamento das neuroses. Para os demais profissionais interessados, o curso serve como habilitação para que atuem de forma pedagógica, visando a prevenção das neuroses.

O aprendizado, afirma a psicóloga Giovana Borgato Manflin, podendo ser utilizado pelo interessado em sua área de atuação profissional e pessoal. Esta categoria não habilita os profissionais que não sejam psicólogos a atuarem de forma clínica.

A formação tem duração de três anos, com dez encontros anuais (para o primeiro ano) e 11 encontros anuais (para o segundo e terceiro ano). No primeiro ano serão oito encontros teóricos-vivenciais mensais, com início em março, e dois workshops vivenciais em julho e novembro. Para o segundo e terceiro anos, nove encontros teóricos-vivenciais, com início em abril e dois workshops vivenciais em julho e novembro.

• Serviço

Curso de especialização em psicoterapia e terapia corporal. Informações: Instituto Raiz (rua Doutor. José Maria Rodrigues Costa, 3-76, Jardim América, Bauru).

Site: www.institutoraiz.com.br