Nas datas festivas ele colocava o pavilhão brasileiro no porta-mastros, chumbado na parede externa frontal do prédio de repartição. Daí seus colegas o chamaram pelo carinhoso apelido de João Brasileiro. Todos nós dependíamos de seus serviços lá na Delegacia de Saúde de Bauru. O delicioso café com que nos brindava cotidianamente. As idas ao correio, para levar e trazer a correspondência oficial. A limpeza geral do prédio, etc.
Figura muito simpática. Estatura mediana. Compleição robusta. Na meia-idade. Cabelos castanhos, penteados para trás. As cãs lhe cobriam as têmporas. Seu nome de batismo era João Batista de Morais. Nome que lhe proporcionou alguns aborrecimentos. Quando um homônimo inundou a praça com cheques borrachudos. O jeito foi constituir um advogado para provar lá no fórum que ele não era um estelionatário.
Não era palrador, mas num momento de descontração, em 1967, desatou a narrar-me uma história verídica. Passada nos anos 50, em sua cidade natal, bem próxima a Bauru. Lá, todos os olhares masculinos convergiam para um belo par de pernas femininas. Os varões solteiros do local desejavam ardentemente levar a guapa jovem ao altar. Um deles conseguiu. O vitorioso vivia então se jactando de ter a mulher com as pernas mais lindas do mundo.
Fazia isto com arrogância, humilhando as demais mulheres da cidade. Mas, alguns anos depois, sua esposa teve grave problema de saúde. O mundo então desabou sobre a cabeça do marido. Os médicos foram compelidos a amputar as duas pernas dela. Cinco dedos acima dos joelhos. Macambúzio, ele teve que conviver com uma mulher, na cadeira de rodas, sem as pernas mais lindas do mundo.
Gilberto Sidney Vieira