Um movimento silencioso está tomando conta da periferia de Bauru. Novos negócios estão se proliferando nos bairros “pobres”. Aos poucos, até mesmo os moradores das vielas mais esquecidas da cidade começam a exalar empreendedorismo pelos poros. Levantamento feito junto à Secretaria Municipal de Finanças comprova que o processo de expansão tem se dado de maneira vertiginosa nos últimos anos.
Entre 2005 e 2006, foram feitos 4.482 pedidos de aberturas de novas empresas com endereço fora da área central da cidade. Os números relativos ao Centro de Bauru para mesmo período são bem mais modestos. Entre 2005 e 2006, apenas 820 pessoas demonstraram interesse em montar negócios na região. A quantidade representa menos de 20% do total de empreendimentos criados na periferia nos últimos dois anos.
Esses dados ajudam a comprovar aquilo que a maioria dos moradores e empresários dos bairros distantes já havia percebido há bastante tempo. “O comércio daqui está de vento em popa. A tendência é de que ele cresça ainda mais no futuro”, acredita Elisabete Martins Naba, 43 anos, dona da uma loja de roupas situada na avenida Ayrton Busch, no Parque Santa Edwirges.
Atualmente o negócio mantido por ela disputa espaço e clientes com drogarias, oficinas, papelarias, locadoras de vídeo e supermercados. Cerca de dez anos atrás, porém, o bairro era considerado um dos mais carentes do município. O fenômeno percebido na avenida Ayrton Busch pode ser notado em outras partes da cidade, como as avenidas Lúcio Luciano, na zona leste, e Castelo Branco, na região oeste.
Especialistas da área econômica também já haviam se dado conta dessa nova realidade. Estudo recente realizado pelo Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, sediado em São Paulo, aponta que o capitalismo está avançando de modo promissor nas áreas mais pobres do País.
O trabalho foi publicado no ano passado e tomou por base a trajetória de 1.092 famílias de baixa renda residentes em bairros periféricos da Grande São Paulo. Os pesquisadores chegaram à conclusão que de que o potencial empreendedor das regiões carentes é maior do que o senso comum imagina.
Movidos pela intuição, os empresários dos bairros pobres ajudam a transformar o País em um dos lugares mais empreendedores do mundo. Atualmente já são aproximadamente 17,5 milhões de negócios do gênero espalhados pelo Brasil, de acordo com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), e a tendência é de que esse número aumente ainda mais nos próximos anos. O pequenos empreendimentos também já representam cerca de 98% do total de empresas instaladas no Estado de São Paulo.
Apesar de o achado estar relacionado a uma realidade aparentemente distante da existente em Bauru, os responsáveis pela pesquisa garantem que os resultados podem ser generalizados para o restante do País. “Esse fenômeno não é muito diferente daquilo que se vê nas periferias de Recife, Belo Horizonte ou Salvador”, afirma o economista Nilson Vieira de Oliveira, um dos autores do estudo.
Segundo o Sebrae, a Região de Governo de Bauru conta atualmente com quase 27 mil pequenos negócios. “Fala-se muito a respeito do baixo poder aquisitivo da população de nosso município. Na cabeça de algumas pessoas, a cidade não seria uma lugar promissor para os investidores. Na minha opinião, porém, isso é uma crendice originada pela baixa auto-estima de nosso povo. Talvez essa visão seja reflexo dos problemas políticos que temos enfrentado nos últimos anos”, pondera o consultor econômico Adriano Fabri, que também é professor da Instituição Toledo de Ensino (ITE).
Apesar de acreditar no espírito empreendedor dos bauruenses, o economista destaca alguns fatores que impedem os negócios criados na cidade de irem adiante. O principal problema, segundo ele, estaria na falta de planejamento estratégico por parte dos proprietários. Especialistas da área concordam com ele.
“Muitas pessoas se deixam levar pela intuição e acabam se lançando em projetos que não são viáveis economicamente”, diz a analista Lúcia Helena Tragante, responsável pelo setor de educação do escritório regional do Sebrae em Bauru.
Outros fatores, como a baixa oferta de crédito, também ameaçam o futuro das empresas instaladas na periferia. Tanto que, segundo estimativas da entidade, 68% dos negócios existentes no País não chegam a ultrapassar cinco anos de vida.