08 de julho de 2026
Articulistas

Salutar agito


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Finalmente, a confirmação do medíocre resultado do PIB de 2006 , agitou o clima na gaiola dos gênios do Banco Central, onde se sustentava que a calibragem dos juros não impediria um crescimento de 4% . Não alcançou 3% . Movimento tardio de alterações no Copom, como sói acontecer entre nós, depois que suas decisões derrubaram o ânimo empresarial em 2005 quando a aposta era a retomada do crescimento de forma robusta com boa perspectiva de passar de 5% . Do entusiasmo que o levava a arriscar novos investimentos para aumentar a capacidade de produção e a aumentar as contratações, o empresário passou a uma posição de extrema cautela ao receber a mensagem clara do governo que não estava disposto a facilitar a sua vida acelerando a queda das taxas de juro.

Diante desse ambiente amigável às finanças e hostil ao setor produtivo, o empresário limita-se a sobreviver, o que já é uma façanha extraordinária numa economia em que é obrigado a entregar ao governo praticamente 40% do valor adicionado de sua atividade. Isso é três vezes mais do que sua própria margem e corresponde ao dobro do que ele gasta com salários de seus empregados. Como contratar mais e para que? Para aumentar o sufoco? Acresce que para cumprir minimamente as exigências dos fiscos federal, estaduais e municipais ele tem que lidar com centenas e até milhares de itens legais, que vão desde dispositivos constitucionais a atos normativos das Receitas, até portarias de secretarias de finanças municipais. O cálculo de que a garfada é de 40% está subestimado porque a ela o empresário tem que acrescer o pagamento de profissionais capacitados como contadores, economistas, engenheiros e advogados que lhe dão a segurança de que não esqueceu nenhum imposto, taxa , contribuição , etc. Ele sobrevive e anda sempre de olho na oportunidade de crescimento de seu negócio mas logo que se anima a investir no aumento da produção para atender à demanda que seu faro prenuncia , vem o Banco Central e o ameaça com maior aperto na política monetária , exatamente para impedir que a demanda se exerça um dia... Isso porque os “gênios” decidiram que o Brasil não pode crescer “porque lhe falta poupança”. É no mínimo curioso como essa idéia fajuta pode prevalecer tanto tempo, “batendo de frente” com a realidade que a desmente todos os dias. Outro castigo é que o empresário não pode ter a menor confiança sobre a taxa de câmbio real, uma vez que lhe provaram cientificamente que ela é o “resultado natural de um processo natural”. Isso reduz o horizonte de seus negócios ao mercado interno, do qual ele vai sendo expelido “naturalmente” pelo privilegiado competidor externo. Não há argumento que o convença que é “natural” que sua moeda tenha uma valorização 120% superior à valorização das moedas de seus concorrentes, em relação ao dólar, e que não haverá nenhum problema para enfrentar a feroz competição nos mercados externos. Ele não tem alternativa a não ser dosar seus investimentos de modo a apenas aumentar a produtividade e não ao objetivo de aumentar a produção , contribuindo para reduzir o emprego.

Há outros dilemas que envolvem o setor produtivo e tenho observado que um dos que mais contribuem para retardar as decisões de investimento é o fato de o governo, apesar do esforço para fazer deslanchar os projetos, não conseguir transmitir a convicção de que não vai ter problemas de oferta de energia nos próximos anos. Isso é tão mais surpreendente quando se sabe que existe no mercado um volume imenso de recursos à procura de bons projetos. Ao governo cabe ultrapassar esta fase de timidez, envolvendo-se em ações para afastar obstáculos que retardam o início das obras.

O autor, Delfim Netto, é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento